Sobre ciúmes, sororidade e o que o espelho tem a ver com tudo isso

Em minhas redes sociais, as quais são o meu meio mais frenético e escancarado de exposição de tudo que vejo, penso ou sinto, acredito que já expressei de maneira muito rasa a minha visão a respeito do ciúme em um relacionamento. Meu pobre discurso beirava o clichê e demagogo ao reproduzir aquele conteúdo clássico da militância digital: “eu não preciso disso, eu amo minhas irmãs”.

Realmente, sigo acreditando que se possuímos um relacionamento monogâmico estável e sadio, sem joguinhos psicológicos e manipulações de ambos os lados, aquela brincadeira infeliz de “com quem você está falando?” se torna obsoleta. Porém, a questão não é tão rasa assim. Eu estou em um relacionamento estável e sadio e, ainda assim, o ciúmes não deixa de dar suas caras sempre que requisitado pela minha psique. A questão aqui não é simplesmente abraçá-lo e atacar toda e qualquer mulher que chegar perto de meu parceiro, a questão é entender a origem deste sentimento não só em mim, mas em nós, na comunidade feminina que tanto se debate a respeito desta sensação tão primitiva e ah, tão comum e destrutiva ao mesmo tempo.

Então vamos lá: por que sentimos ciúmes? Não sou psicóloga nem nada parecido, longe de mim. Mas, ao menos pelos depoimentos que coleto em minha juventude, e pelo que sinto em minha particularidade, ele surge daquela sensação tão conhecida de inferioridade. Ou melhor, do que a competitividade feminina faz conosco. Sinceramente, não vou nem me incomodar em abordar isso. Quem me segue e acompanha, sabe o quão contrária sou a todo este universo. Estou falando aqui é a respeito de sentimentos, de dores, de agonias. Feminista ou extrema direita, todas estamos sujeitas; e é justamente esse o meu ponto.

Já falei em meu diário online chamado Facebook o quão insegura sou e sempre fui. Já falei sobre minha fobia social e ódio a mim mesma, já falei sobre o quanto já me escondi do mundo por conta da minha aparência. Hoje, ouço muitos depoimentos de “eu te admiro tanto”, “você é incrível” e nem pareço mais ser aquela adolescente de 15 anos com medo de tudo e de todos. Mas lembro que naquela época, com meu cabelo preso, jeans e camiseta básica, eu morria de medo das mulheres que não tinham medo de nada.

Eu queria um pouco de tudo. O cabelo colorido, as roupas descoladas, as tatuagens e, principalmente, a atitude descarada. Me julgava o pior ser humano do mundo por não conseguir dizer um simples “oi” sem suar frio enquanto tantas ao meu redor faziam isso e muito mais. Porém, devido ao tempo e sua cura inevitável, eu fui mudando. Arrisquei e vi o quanto gosto de conversar e abordar estranhos, fazê-los rir e dar minha cara a tapa. Vi o quanto amo decotes, estampas coloridas e batons que chamam a atenção para quem está literalmente do outro lado da rua. Já hoje, com meu cabelo raspado e atitude totalmente sem estribeiras ou censuras, lembro o quanto me assustava ao ver mulheres assim; hoje, se vejo uma moça quieta e escondida, faço toda a questão do mundo de mostrar a ela o quanto quero ser sua amiga e que ela não precisa mudar em absolutamente nada para ser linda. Eu era linda exatamente daquela maneira e, se ela quer ou não ser diferente, não cabe a mim examinar. Só cabe a mim abraçá-la, assim como muitas outras antes de mim fizeram.

Voltando aos comentários de admiração, ao mesmo tempo que eu agradeço horrores, não consigo deixar de pensar “você não me conhece de verdade, logo, não sabe o quanto de horror e culpa eu carrego comigo”. Sabe o que eu tiro disso? Talvez as moças de vida aparentemente perfeita e organizada que eu vejo hoje também carreguem. Talvez elas também tenham momentos de desespero, agonia e isolamento. E mais do que isso: talvez elas, essas deusas que eu tanto invejo, também estejam em evolução. Todas estamos e não há nada de errado nisso.

Quanto ao ciúme, destacado no início mas já perdido pela minha mente corriqueira, basicamente, quando ele vem, ele sussurra em meus ouvidos aquelas palavras de sempre, “você não é boa o suficiente, não como ela. Olha só como ela é bem sucedida, linda, única e forte”. Rapaz, talvez ela seja, de verdade. Mas a questão não é nem essa: assim como eu, ela está caminhando. Ela pode me ensinar, assim como eu, a menina mais estranha e excluída do Ensino Médio, fui capaz de inspirar — ao menos de acordo com algumas de vocês -, algumas pessoas. Eu querer competir com ela é consequência, a causa em si é o carrasco mental que levamos conosco a vida inteira. Mas ainda dá tempo de consertarmos isso, por mais complicado e demorado que seja. O primeiro passo, creio eu, é se olhar no espelho e simplesmente aceitar tudo que se vê. O resto vem e acontece, assim como os amores e quem é atraído pela pintura que carregamos conosco. O que não podemos é jogá-la fora por conta da cor do cavalete ao nosso lado. Juntos, eles são a mais linda e poderosa das composições.