Desonra - Coetzee

Sou obrigada a começar esse texto fazendo a seguinte consideração: Desonra não é um livro para qualquer pessoa! Então, se você não está em um bom momento da vida ou anda com muitos problemas, é melhor passar outras leituras na frente. Desonra é um livro que dói e abre ferida. E o motivo disso, na minha visão, não tem relação direta com o aspecto muito violento do livro em si, apesar dele estar bem presente em algumas partes, mas as reações dos personagens aos fatos que acontecem com eles. As ações me pareceram ruins sim, mas cotidianas até certo ponto. O grande desafio foi entender a forma como os personagens conseguiram lidar daquela maneira com as suas chagas.

Desonra é o tipo de livro feito para ser odiado, feito para ser questionado, feito para destruir. Porque, como o próprio nome revela, o livro traz mais do que dor, traz humilhação. Nós assistimos a trajetória da humilhação de alguns personagens que foram destruídos e resolveram não lutar contra isso. E essa entrega dos personagens aos seus destinos me incomodou muito mais do que qualquer coisa no livro. Acho que estamos sempre acostumados a histórias de superação. Tão acostumados que a resiliência choca muito mais que as barbáries do mundo em si. Pelo menos é com essa sensação que termino o livro. Com o incômodo que todos sentimos quando vemos alguém claramente tomando a direção errada e não podemos fazer nada por esse alguém. Enfim, acredito que não há adjetivo melhor para esse livro do que incômodo. Ele é muito bem escrito e muito bem amarrado, porém incomoda do início ao fim. Acredito, inclusive, que esse é um dos pontos altos da leitura. Afinal, quantas são as coisas da vida que queríamos mudar e não podemos? Quantas pessoas você conhece que poderiam ser ajudadas e escolhem, por algum motivo, se recolher e se resignar? Outro ponto interessante da história mostra o quanto as pessoas se incomodam com as atitudes dos outros, mesmo quando elas são exatamente iguais às suas. Porque no outro podemos ver claramente aquilo que nos falta.

Entre as críticas que li sobre o livro, percebi que muitas pessoas falavam unicamente sobre o David Lurie. Como se a história do livro fosse dele e os outros acontecimentos do livro servissem para o crescimento do personagem. Primeiramente, acredito que o livro trate mais sobre decadência do personagem do que sobre seu crescimento. Como o próprio nome do livro sugere. Além disso, acredito que as outras histórias que dialogam com o personagem têm uma riqueza muito semelhante. Simplesmente não gosto de encará-las como muletas.

Enfim, Desonra é um livro cheio de reflexão sobre a verdadeira condição humana, sobre a verdadeira fragilidade sobre a qual construímos nossas vidas e sobre como nossos ideais podem nos destruir. Como disse anteriormente, é um livro para quem tem estômago.Porque é um livro que provoca sensações. Gera raiva, tristeza e revolta. Mas também te faz entender um pouco sobre o sentido que cada um de nós carrega na vida. E por isso a leitura vale a pena!