Um teto todo seu — Virginia Woolf

Sinceramente não me sinto muito preparada para falar sobre esse livro. Aliás, acredito que quase ninguém esteja depois da primeira leitura. Esse é um daqueles livros com milhares de fragmentos que podem ser analisados mil vezes e de mil formas. Mas como estou muito entusiasmada com ele, vou dar a minha primeira impressão de leitura (já que pretendo reler muitas vezes). O tema principal do livro é o panorama do gênero feminino na ficção. Mas a narrativa não se resume a isso. O livro nos transporta totalmente para a vida da mulher daquela época. E como toda ela era formada ao redor do homem e para ele. Trazendo algumas histórias ficcionais (que poderiam muito bem ser reais), Virginia nos mostra porque a produção literária feminina era tão menor que a masculina naquele período. E porque as mulheres eram quase sempre colocadas como algo intelectualmente inferior. Ao longo do livro, vamos percebendo que todos os caminhos usados pela autora levam à conclusão central do livro: as mulheres precisam ser financeiramente independentes e precisam ter um lugar unicamente delas mesmas para produzir ficção de qualidade. No livro se fala apenas de ficção por esse ser o tema do ensaio. Mas acredito que possamos pensar nela como qualquer atividade intelectual que, naquele momento, era predominantemente realizada por homens.

Não vou ser estraga prazeres e revelar mais coisas sobre o conteúdo do ensaio. Porque acho de fundamental importância a beleza da descoberta, por cada um dos leitores, de cada uma das hipóteses e teorias colocadas por Virginia em sua obra. A construção de cada personagem utilizada por ela, seus feitos e suas conseqüências são realmente memoráveis. Recomendo apenas que, se você ficou apenas um pouco intrigada(o) com essas poucas palavras, leia o livro! Mas o leia imediatamente! São pouco mais de 150 páginas que são capazes de mudar muitas coisas na sua forma de ver a ficção e as discussões sobre gênero, principalmente no período em questão (início do século XX).

Com relação às minhas percepções sobre as teorias desenvolvidas na obra, concordo plenamente com a autora (confesso que tenho essa pequena tendência ao ler livros não-ficcionais). Creio que a liberdade feminina tem uma relação muito forte com sua liberdade financeira e com a conquista de seu próprio lugar no mundo. Esse é sempre o primeiro passo para a conquista de direitos e representatividade. Concordo também que não apenas isso é necessário. Mas é sempre o primeiro passo. Acredito que não é apenas preciso que as mulheres conquistem um lugar próprio fisicamente, mas também psicologicamente. Além de um local físico para produzir, possam produzir aquilo que querem e o que sentem. E não o que é exigido delas por meio da (ainda) sociedade voltada para o gênero masculino. Mas, para um ensaio escrito há quase um século atrás, acredito que os primeiros passos foram bem previstos (e até cumpridos em alguns lugares). E graças a algumas mulheres como Virginia, hoje podemos ler esse ensaio e perceber a nossa vida tão diferente da vida daquelas mulheres ali representadas. Enfim, acredito que ainda há muito o que fazer e discutir para que feminino deixe de ser um espelho e passe a possuir uma imagem própria e bem formada. Mas o primeiro passo ainda é ter um teto todo seu!

Se você gostou do livro:

Podcast: Mamilos

Livro: O amor de uma boa mulher — Alice Munro

Série: The Good Wife