Hello

Eu estava descendo a rua um pouco íngreme de um pequeno povoado no Equador, onde todo mundo tem cabelo comprido, um olhar manso e um sorriso no rosto. Eu caminhava em direção à beira de uma lagoa, onde ia pegar um ônibus para uma cidadezinha muito perto dali.

A alguns metros do meu destino, três crianças se aproximaram de mim -sem me darem tempo de supor o que elas queriam comigo- e me disseram:
-Hello.

Eu respondi o mesmo e elas me devolveram outro “hello”. Arrisquei um “Como están?”, mas a única resposta que tive foi “hello”. Tentei um “how are you?”, e os três me disseram em coro afinado: “hello”. As crianças continuavam seu caminho de subida e eu, de descida, enquanto a gente mantinha o papo profundo do “hello”. Foi quando vi o ônibus passando e brecando pela esquina: em um povoado com tanta pouca gente, o motorista para quando vê qualquer pessoa vindo em sua direção.

O primeiro reflexo foi apertar o passo, aquilo que sempre fiz automaticamente nos últimos quatro anos que vivi na cidade grande. 
Mas como quem pensa “ufa, não preciso mais disso”, parei, virei para trás, abanei as mãos e disse para as crianças: “chau”. Elas me responderam “hello”, a quase uma quadra de distância. Eu disse, então, “hello”.

Quando olhei de volta para a esquina, já não tinha mais ônibus. Este foi um dos maiores presentes que viajar me deu: me sentir feliz por perder o ônibus (em vez de xingar o universo) para poder ter mais tempo de conversar com as pessoas na rua e poder olhar para um lago.

Cheguei até a esquina e me sentei em um banco na rua de terra que ficava na frente daquela imensidão de água para poder esperar -sem pressa- o próximo ônibus.

Quatro meninas de uniforme, voltando da escola, se sentaram do meu lado e começaram a comer manga, além de me entrevistar. Perguntaram meu nome, de onde eu vinha, quantos anos eu tinha, se eu namorava e se tinha filhos. A cada resposta minha, elas botavam a mão na cara e riam, como se eu tivesse contado aquele “bafão” cabuloso que eu adoro escutar.

“Você sabe falar inglês?” uma delas disse. E após a minha resposta afirmativa, iam pipocando palavras para eu falar em inglês.
-Carro.
-Cachorro.
-Manga.
-Lago.
-Uma frase bonita em inglês.
-Escola.

E diante dos risos e cara de espanto que faziam a cada tradução minha, eis que o ônibus chegou. Eu dei um beijo em cada uma e subi. Quando olhei pela janela do ônibus, elas pulavam e me acenavam com as mãos, gritando aquela palavra de despedida. Um “hello” quase saiu da minha boca, mas tive tempo de trocá-lo por um “chau”.

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