Sobre sofás e estrada

A zona de conforto é aquele sofá macio e superinflacionado que você comprou iludido pela palavra “promoção” e depois se deu conta que teria que trabalhar duro para pagar as gordas prestações no fim do mês… afinal não existe almoço grátis e os boletos sempre chegam. Mas vou te dizer que por mais confortável que seja ver unicórnios na sua tv de plasma, esticado no seu sofá macio e superinflacionado, pode ser ainda mais divertido acordar e dar de cara com uma vaca na porta da sua barraca de acampar quando você estava saindo pra esvaziar a bexiga. Não é muito fácil fazer xixi com uma vaca te olhando fundo, mas no final nas contas, você percebe que elas nada mais são que suas amigas.

Desculpa a embromação, ainda temos muito asfalto pela frente. E foi aí que eu e a Louisa levantamos do nosso sofá emprestado e furado, botamos as mochilas na costas e nos jogamos nessa estrada da vida. Nossos dois amigos espanhóis não quiseram nos acompanhar, pois preferiram tomar um ônibus e chegar “mais tranquilos” no próximo destino. Então eu e ela olhamos no mapa a avenida que precisávamos pegar para sair da cidade e fomos caminhando até lá. Ao encontrá-la, ela se enfiava por um túnel subterrâneo por alguns quilômetros. Fomos seguindo-a “por cima” e um tempo depois a avistamos saindo do túnel e se transformando em um viaduto. Já na ponte, demos uns dez passos, levantamos o dedo e pedimos ao senhor das caronas que fosse generoso, já que o sol estava escaldante. Não deu nem tempo de abaixar as mochilas e dois guardas de trânsito pararam o carro do nosso lado. Eu já estava preparada para aquela bronca, mas eles perguntaram onde íamos. Dissemos que precisávamos chegar à estrada que nos levaria a Salento e eles disseram para a gente subir. “Estamos proibidos de dar carona, mas quem se importa”.

Nos deixaram na saída da cidade, mas ainda tínhamos muito chão para chegar na estrada. Atravessamos uma avenida e levantamos o dedo -por desencargo de consciência- enquanto andávamos por uma bifurcação que dava em uma estrada sem acostamento. Pois foram cinco segundos para um casal de jovens parar o carro bruscamente no meio da curva estreita. Entendemos porque acontecem tantos acidentes em Cali, como nos contou os guardas de trânsito. O casal estava indo para o aeroporto e não sabia onde ficava Salento. Ficamos ali, no meio da bifurcação, olhando o mapa e chegando à conclusão se o nosso caminho era ou não o mesmo. Bingo! Eles podiam nos levar até o começo de um trevo que dava para estrada a Salento.

Descemos, cruzamos as estradas devidas, achamos uma sombra estratégica e descansamos as mochilas. Não passou mais que dez minutos e um casal com a filha pequena parou para a gente. Eles iam para uma cidadezinha que se desviava da nossa rota em certo ponto e disseram que poderiam nos deixar lá. Depois de uns 30 km, pararam e apontaram para a estrada que subia à esquerda: era por lá que devíamos ir.

Novamente rogamos aos deuses dos mochileiros, porque era meio-dia e pouco, “o calor tá de matar”, o sol estava quase a pino e não havia qualquer chance de sombra. Eu tive tempo de colocar minha mochila no chão, levantar o dedo e dar um pulo para trás, porque achei que um ônibus ia atropelar minha amiga, eu e as mochilas. O coletivo parou no acostamento e o cobrador, esbaforido, já foi abaixando para pegar as mochilas. “Gracias, amigo, mas estamos pedindo caro….”, eu tentei dizer, mas ele respondeu mais esbaforido ainda: “Sobe, sobe, alguém pagou a passagem de vocês”. O destino do ônibus era uma cidade na metade do nosso caminho. Não tivemos muito tempo para pensar, só subimos.

A vida de mochileira fez cair por terra a minha ideia fixa de que “quando a esmola é muita, o santo desconfia”. Os bons corações alheios também desafiam diariamente a economia, porque já me proporcionaram o prazer de devorar alguns almoços grátis. Falando em almoço, barriga roncando, e já que não tinha comida, por que não ser uma sardinha?

O busu, o micro-ônibus, na verdade, estava mais lotado que sei lá o quê. A gente ficou em pé, perto da porta (aberta) e também bem perto de saber como é voar: uma freada brusca e a gente ia de sardinha a passarinho. Uns dez minutos depois, dois homens vieram fazer parte da salada de peixe ou coração de mãe, onde sempre cabe mais um (ou dois). Respirei aliviada, porque aquele famoso empurrãozinho tirou o meu da reta e eu já não estava mais diante da porta. A tranquilidade me permitiu curtir a salsa que tocava no rádio do ônibus, e meus pezinhos estavam coçando para colocar em prática os ensinamentos da aula grátis que eu tivera no dia anterior. Mas aí a gente lembra dos ensinamentos de papi e mami e não faz para os outros o que não deseja para a gente. Odeio levar bundada, então mantive o esqueleto comportado.

O ônibus então parou em um terminal e eu pensei: fudeu. A maior dificuldade de pegar carona, principalmente a partir de cidades grandes, é conseguir chegar até a estrada. Bom, metade da galera do busão foi descendo e eu saí junto por livre e espontânea pressão, literalmente. Eu e minha amiga fomos falar com o cobrador e ele nos disse que a passagem tinha sido paga até a próxima cidade. Explicamos que estávamos pedindo carona e pedimos que nos deixasse na estrada, em algum ponto que fosse fácil conseguir um carro que parasse. Voltamos ao ônibus, agora com assentos vagos. Uma senhora dormia na poltrona do corredor e eu a pulei para sentar na janela. Eu também cochilei e acordei não sei quanto tempo depois com a mulher me cutucando e dizendo: “meu amor, você tem que descer aqui”. Eu agradeci e dei um duplo twist carpado por cima da amável senhora. Os outros passageiros deram espaço para a minha aterrissagem nota 10, modéstia à parte (a essa altura, o ônibus era novamente uma lata de sardinha). Cutuquei minha amiga, que também tinha cochilado, e descemos, agradecendo novamente o senhor que tinha pagado nossa passagem. O cobrador nos deixou em um ponto estratégico.

Pausa para dizer o quanto os colombianos são incríveis! Tô apaixonada por esse país! Me disseram que aqui seria difícil “hacer dedo”, mas essas quatro primeiras caronas foram as mais rápidas que já consegui pegar. Bom, nos posicionamos em uma sombra linda de se ver e comemoramos que a estrada estava movimentada. Mas tivemos que esperar cerca de meia hora para que a nossa quinta e mais divertida carona parasse.

Era um caminhoneiro que transportava tangerina e laranja, mas que infelizmente estava com a traseira vazia desta vez. Ele nos contou várias histórias da Colômbia e bradava “ladrões corruptos” cada vez que a gente passava por um policial. “Olha lá, deve estar extorquindo esses caras, certeza!”. Ao chegarmos à zona cafeeira, ele nos convidou para um café.

Quando estávamos passando por um povoado, ele parou o caminhão no meio da rua e desceu, deixando os vidros abertos e o motor ligado. Estávamos bem na frente da vendinha de uma conhecida dele, muito simpática por sinal. Tomamos um café delicioso e voltamos à estrada. Ele ia para uma cidade diferente da nossa e nos deixou na rotatória em que nossos destinos se separavam.

Era um lugar lindo e bom pra levantar o dedo, já que a estrada onde paramos estava em reforma e todos os carros tinham que reduzir consideravelmente a velocidade para passar e muitas vezes se formava uma fila de lentidão. Olhei para a Louisa, ela me olhou, e dissemos: yes, essa vai ser fácil. Errouuu!!! A gente ficou pelo menos 40 minutos e nada da carona.

Quase todos os carros passavam cheios: era gente amontoada no banco de trás, fulano no colo de ciclano, gente deitada e enrolada no edredom, abraçando caixas imensas. Um fenômeno local a ser estudado. Os poucos carros que vinham vazios e paravam, iam para Armênia, uma cidade de porte médio que ficava ali do lado. Não queríamos avançar até lá, pois teríamos que alcançar a estrada de novo se nos deixassem dentro da cidade.

Mas esses 40 minutos foram de pura diversão, já que a gente estava muito perto dos carros que andavam lentamente: demos tchauzinho para meia Colômbia e fomos retribuídas 100% das vezes com outro tchauzinho e um sorriso -e muitas vezes com um “boa sorte”. A luz do dia começou a falhar e então percebemos que já passava das 17h. Concluímos que aqueles carros todos iam para Armênia e que a melhor saída seria tentar a estrada depois dessa cidade.

Mais um carro parou e minha amiga perguntou se seria possível nos deixar na saída de Armênia. O motorista disse que sim. Louisa, que é francesa, disse que o homem falava francês. Ela, então, sentou no banco da frente e quando eu entrei atrás dei de cara com um bebê! Coisa mai linda do mundo! Os dois foram falando francês na frente e eu fiquei como? Morrendo de felicidade atrás, brincando com meu amiguinho. Ele se escondia atrás da cadeirinha e depois tentava me “assustar”. Com uns dez minutos de brincadeira, eu e o bebê estávamos nos matando de tanto rir.

Juan Carlos, o pai da criança de mesmo nome, fez um tour pela cidade, nos mostrando os pontos principais, e também não se privou de dar aquele sermão dizendo o quanto era perigoso pedir carona e que logo ia escurecer e blá. Nos deixou no final da cidade, em um posto de gasolina, e disse que caso ficasse muito tarde, que pegássemos um ônibus, que custava o preço de uma garrafa de água. Nos despedimos e começamos a saga pela sétima carona.

Já eram cerca de 18h, e o sol foi dormir. Estávamos muito perto do nosso destino e eu estava super animada pra pegar carona, já que o calor não incomodava mais. O posto, que ainda estava dentro da cidade, parecia seguro, mas não era um lugar muito bom para um carro que vinha da avenida parar. A única coisa que parou foi um ônibus. Perguntei o preço e o motorista disse que eram 5.000 pesos (cerca de 6 reais). A água dessa garrafa deve ter vindo lá dos Alpes Suíços, pensei. “No, gracias, amigo”, disse.

Então a Louisa ficou levantando dedo na calçada e eu ia na cara de pau perguntar para todo carro que entrava no posto: “boa noite, você vai para Salento?”. Eu sei que pareço um fantasma, mas as pessoas não disfarçavam. Era cada cara de susto que eu via. Só faltavam me perguntar “que cê tá fazenu, sua loka?”. Em vez disso, me respondiam com um gentil: “não, sinto muito”.

Mas como hoje é dia de sorte, depois de perguntar para uns 15 carros, eis que dois cidadãos estavam indo para uma pequena cidade à frente do nosso destino e disseram que nos deixariam na entrada de Salento, em um ponto de ônibus. Descemos. Bateu aquele medão na escuridão, que durou um minuto, porque um carro parou. Amém! Depois de 8h de estrada e pouco mais de 200 km percorridos, nossa oitava e última carona nos deixou em uma praça na nossa cidadezinha de destino.

O lugar estava cheio de barraquinhas de comida típica e não existe coisa que afague mais meu coração do que as reminiscências das quermesses que eu ia quando eu era criança e morava no interior. No acomodamos para comer arepa na cadeira dura mais aconchegante que eu já tinha sentado.