A pele que habito

Eu nunca assisti o filme que dá título a esse textão enorme e inútil, mas acho que o título é muito adequado porque este é um texto epidérmico.

Esses dias eu estava conversando com minha prima que tem vitiligo sobre os efeitos do sol de verão (forte e queimante) nas nossas peles despigmentadas, aí a gente aproximou nossas peles e comparou o desenho das nossas manchas. Eu ri, porque nós duas somos o yin-yang epidérmico e a prova de que a vida gosta de brincar também epidermicamente. Vou explicar:

Eu tenho piebaldismo, que é uma condição genética autossômica que afeta a pigmentação da pele e dos cabelos. Eu nasci branquinha, branquinha, e, se não fosse pelos cabelos metade-brancos-metade-castanhos e pelos olhos escuros, eu poderia ser considerada “albina” quando bebê. Conta minha mãe que minha primeira mancha apareceu aos 6 meses. Desde então é uma mancha nova a cada dia. Minha pele vai ganhando pigmentação aos poucos numa imprevisibilidade engraçada. Quando eu era criança, lá pelos 10 anos de idade, eu tinha o Estreito de Bering (aquele estreito que liga Rússia e Alasca) na testa, já não tenho mais, porque a minha testa ganhou novas manchas (eu até mostrava o mapa mundi pras pessoas pra elas conferirem o mapa na minha testa). Minha prima tem vitiligo, e a doença começou aos 10 anos. Vitiligo é o oposto do piebaldismo, apesar de todo mundo achar que é a mesma coisa. Vitiligo é mais comum. Ela nasceu com a pele “normalmente” pigmentada. E a genética faz com que ela vá perdendo pigmentação, a pele vai se despigmentando aos poucos. A situação do vitiligo é um pouco mais complicada porque tira completamente a melanina e deixa a pele extremamente sensível, precisando de uma proteção muito mais forte no sol.

A ironia é que vitiligo e piebaldismo são coisas diferentes (embora sejam confundidas), mas onde eu tenho manchas escuras, isto é, pigmentação, a minha prima tem despigmentação. Acho engraçado que a pele dela embranquece e a minha escurece seguindo o mesmo padrão, os mesmos lugares (principalmente: mãos, cotovelos, joelhos e pés). É como se tirassem a cor dela e colocassem em mim, na forma de um carimbo, ou uma transferência epidérmica. Se cortar as partes despigmentadas da minha prima e cortar as minhas partes pigmentadas e costurar ambas as partes pigmentadas, nós teríamos uma terceira pele, uma pele “normalmente” pigmentada formada por duas peles configuradas como entre-lugar. Mas essa terceira pele não teria nenhum habitante, seria uma pele solta, porque eu sou quem sou (ou quem não sou) com minha pele-que-sempre-se-pigmenta, e minha prima é minha prima (ou quem ela não é) com a pele-que-sempre-se-despigmenta. Nossas peles são o entre-lugar das peles, são a travessia epidérmica, elas se (des)pintam conforme a vida passa e envelhecemos e, no entanto, elas nunca se (des)pintarão completamente. Eu amo nossas peles. A palavra “mancha” tem significados diferentes quando o referente é a nossa pele: pra mim, mancha é pigmento; pra ela, ausência de pigmento. Nossas peles são mapas que constantemente são deslocados pela placa tectônica que é a combinação entre melanina e genética. Nossas peles também são formadas “exotopicamente” pelo olhar do outro, que olha para o mapa epidérmico que é a nossa pele atraído pela diferença e pela incompletude melanínica.

Na história da arte, na época em que a pintura era considerada mimesis/representação, existia o mito do “deus pictor”, que é basicamente o deus-pintor da música do Armandinho — “quando deus te desenhou…”. Segundo o mito, o deus seria um pintor que pintou o mundo. Eu não acredito que deus nenhum me desenhou, mas gosto de pensar que, se alguém me desenhou (eu adoraria que conrad roset tivesse me desenhado), o pintor ia deixar o desenho sem pintar, mas então decidiu pintar com aquarela, respingou uns pingos de tinta meio-bege-meio-marrom-meio-salmão dentro dos traços que delimitam meu corpo, gostou do resultado e deixou assim, sem espalhar a tinta pelo papel, pra dar uma variada na pintura epidérmica do ser humano. Se deus tivesse desenhado minha prima, ele teria pintado todinha a pele dela, mas então ele decidiu realizar uma experimentação e jogou sal na tinta — pra quem não sabe: quando se joga sal na aquarela a tinta é empalidecida. o pintor gostou tanto do efeito na pele dela que, no tempo pictórico de uma vida, continua jogando sal progressivamente dentro dos traços do corpo dela no papel.

O corpo não existe, o corpo se cria. E a pele é corpo. Não é um deus pictor que cria a nossa pele, somos nós mesmos. A genética pinta nossa pele (de amarelo, vermelho, branco, preto, marrom, bege, mármore, pintinhas, etc). A genética também empalidece — minha prima é a prova disso. O sol escurece e avermelha a pele. Os corpos (humanos ou não) a tocam, a arroxeam, a coram. Há peles com sinais de nascença. Há peles com cicatrizes, com estrias, com sardas, com manchas, com espinhas, com verrugas, com cravos. Há quem desenhe na pele. A pele carrega História, seja a história imediata da vida que habita aquela pele ou a história das peles ancestrais que viveram para dar vida à pele-atual-imediata.

Há quem faça julgamentos sem fundamento pela cor da pele das pessoas, quem discrimine cor da pele, quem faça diferença pela cor da pele, quem julgue pela cor da pele ou pelas marcas da história da pele, mas no fundo, como disse a dona darci, uma personagem do valter hugo mãe, “a pele (…) é um pedacinho do tecido que cobre a carne igualmente vermelha de todos nós”. A pele é uma casquinha, a pele é uma mera cobertura, e a gente precisa se “criar epidermicamente” a todo momento, (re)criar nossa pele a ponto de sair da nossa casca e imaginar/criar outras peles de forma a fazer como diz aquele ditado/expressão: “se colocar na pele do outro”. E esse outro pode ser a gente mesmo, porque a nossa pele é sempre outra.