Como psicodélicos e meditação podem andar lado a lado.

Qual é a relação entre psicodélicos e meditação? Experimentalmente, eles parecem abranger o mesmo espaço e tem uma interação significativa, sugerindo que podem ser veículos diferentes que levam ao mesmo lugar. Também existem maneiras notáveis de fazer uma técnica complementar a outra.

Meditação e psicodélicos estão unidos na experiência mística. Este é um estado de consciência que envolve transcendência do espaço e tempo, senso de sacralidade e unidade — muitas vezes, isso inclui o colapso de dualidades previamente estabelecidas, tais como o eu-outro,interno-externo e sagrado-profano. Essas experiências que podem surgir espontaneamente ou como resultado de uma disciplina contemplativa, como a meditação, são descritas pelos místicos e meditadores experientes por milênios.

Em “As Portas da Percepção” , Aldous Huxley relata uma experiência desse tipo com mescalina. Assim que ele publicou este relato influente, acadêmicos religiosos começaram a debater se isso poderia ser considerado uma experiência mística legítima. Iluminação poderia vir com o dom da graça ou disciplina, mas para alguns a ideia de que tal experiência possa ser induzida pela ingestão de uma quantidade ínfima de determinado composto parecia depreciar e desmerecer a experiência.

Alan Watts é um excelente estudo de caso para a questão de misticismo induzido por drogas. Um estudante dedicado de psicologia da religião, ele se imergiu profundamente no estudo zen-budista por boa parte de sua vida, através de leituras e escritas, fez as filosofias espirituais orientais acessíveis a mente ocidental. Ele foi submetido a mais de uma experiência mística antes de tentar os psicodélicos, dando a ele uma vantagem única sobre a experiência que estaria por vir.

Depois de sua primeira experiência psicodélica, ele comentou ser algo interessante e belo, embora certamente não uma vivência espiritual. Pouco depois, Watts foi convencido por um psiquiatra de que talvez sua experiência pode não ter lhe mostrado tudo que havia para ver, e que era necessário um certo grau de habilidade no uso dessas substâncias para alcançar os estados descritos por Huxley e outros.

Levando isso em consideração, ele optou por uma segunda sessão, a qual ele disse depois:

“E eis que, eu tinha o que eu simplesmente não podia negar ser uma experiência da consciência cósmica, a sensação de completa e total unidade fundamental para todo o sempre com todo o universo. E não só isso, mas […] que a energia por trás do mundo estava em felicidade, enlevo e amor. Bem, eu estava muito envergonhado por isso, porque eu pensei, ‘Nossa, você não pode obter o misticismo de uma garrafa. Isso é degradante!’ Mas ainda assim, eu não podia negar o fato de que isso tinha acontecido.”

A experiência mística não é a única experiência que você pode ter com os psicodélicos, porém acontece. Um artigo em Journal of Psychopharmacology de 2008 , informou que cerca de 60% do participantes, que receberam uma alta dose de psilocibina durante um experimento, relataram ter vivido uma “completa experiência mística”.

Certamente, a preparação e o ambiente proporcionados aos participantes neste estudo, contribuíram inegavelmente para a predominância de experiências transformadoras. Eles escolheram um ambiente clínico com acompanhamento de psicoterapeutas altamente treinados. No entanto, uma coisa parece certa: a experiência da consciência mística relatada por esses participantes é o mesmo que o relatado pelos místicos do nosso passado e do presente. Como autoridade filosófica no misticismo, W. T. Stace falou sobre a experiência induzida por drogas: “ Não é questão de ser semelhante a uma experiência mística; é uma experiência mística.”

Tendo estabelecido isso, de quais modos a prática meditativa complementa a exploração psicodélica?

Como monge zen, Vanja Palmers notou em um artigo chamado “Psicodélicos e a meditação” no boletim de outono/2011 da MAPS (Associação Multidisciplinar de estudos psicodélicos):

“É bastante óbvio que as habilidades da meditação, a prática de estar em paz dentro de seu corpo e mente, mesmo em lugares desconfortáveis, pode ser de grande ajuda durante o transe psicodélico.”

Aprender a focar em sua respiração como uma âncora para te trazer de volta ao presente pode ser também de ótima ajuda. No transe psicodélico, ter essas habilidades na manga pode ser a diferença entre perder seu chão quando o material desafiador surge, e ser capaz de permanecer presente e receber a experiência em sua total intensidade e riqueza.

A utilidade desse tipo de treinamento mental profundo é descrito na literatura acadêmica. Em 1982 em Journal of Humanistic Psychology, o psiquiatra Roger Walsh entrevistou cinco pessoas sobre suas experiências psicodélicas. A maioria deles eram professores de psicologia ou alguma disciplina sobre consciência, com uma consistente reputação nacional ou internacional em seus respectivos campos. Todos preencheram o critério de um bem-estar psicológico excepcional e também eram meditadores avançados.

Esses indivíduos concordam que psicodélicos, usados habilmente , podem facilitar o crescimento psicológico — em particular, eles enfatizam a importância de “um profundo envolvimento no processo psicológico ou disciplina de consciência destinadas a profunda formação mental” como descrito no jornal. Tal disciplina não só provê técnicas úteis no curso do transe, bem como uma estrutura para compreender e integrar essas experiências.

Se a prática meditativa pode facilitar o transe psicodélico, faz sentido o inverso ser também verdadeiro. Todas entrevistados de Walsh sentiram que suas experiências psicodélicas resultaram em “um alto interesse de aprofundamento em psicologia, religião, espiritualidade e consciência, assim como relatado em práticas e disciplinas como a meditação.

Eles também relataram que os psicodélicos tiveram o efeito de revelar continuamente novos campos da experiência e exploração. Foi comum a eles terem “experiências que em alguns meses ou anos depois surgem espontaneamente na consciência da vida diária” como o artigo do jornal cita. Este particular ponto salientado demonstra que o estado mental alcançado com psicodélicos não são únicos a essas substâncias, mas inerentes a própria mente.

Neste sentido, psicodélicos podem nos mostrar o que é possível, sem nos mostrar o caminho até lá. Andrew Weil, médico e fundador do Centro de Medicina Integrativa do Arizona, usa uma anedota pessoal para ilustrar este aspecto dos psicodélicos. Em sua entrevista, ele revisitou o tempo durante o qual ele havia encontrado dificuldades na realização de uma desafiadora pose de yoga. Dois meses trabalhando nela, com pouco progresso, ele quase desistiu definitivamente, renunciando que seu corpo cansado de vinte e oito anos apenas não poderia realizá-la.

Então um dia depois de usar LSD com alguns amigos, ele notou que estava se sentindo muito feliz e sentia como se seu corpo com bastante elasticidade, então ele decidiu tentar a difícil pose. Para seu maravilhamento, ele foi capaz de fazer a pose sem sentir nenhuma dor ou desconforto, como havia sentido antes.

No dia seguinte, ele tentou a mesma pose novamente,sem sucesso. A dor e o desconforto haviam voltado, porém seu estado mental havia mudado. Ele percebeu que seu corpo de fato podia fazê-lo, e isso deu a ele motivação para continuar treinando. O LSD mostrou a ele que era possível, mas não deu livre acesso a ele novamente — isso requer seu próprio esforço e perseverança.

Para muitas pessoas, isso é o que acontece com a meditação também. Começar a prática meditativa requer uma certa fé na existência de um estado mental ainda não experienciado.

Mas em um transe psicodélico no qual se experimenta um estado de foco uni direcionado ou um estado mental presente ou o poder de centralizar a atenção na respiração podem ter o mesmo efeito que a yoga teve com o LSD para o DR. Weil: Isso demonstra que é possível, e ajuda a apontar nossa bússola para o trabalho que vem de fora da experiência, sem a assistência de psicodélicos.

Fonte: http://reset.me/story/meditation-psychedelics-can-go-hand-hand/