Hoje eu tentei. Existe uma diferença entre aceitar e ignorar. Hoje, por exemplo, eu ignorei muitas coisas pra não ter que aceitar nenhuma delas. Eu dormi de um jeito que não pudesse sonhar. Eu queria parar. Eu dormi pra fugir do que sou. Não da minha essência, porque certamente é a melhor parte de mim, mas do que me tornei a ponto de esquecer. Eu esqueci do que fui por não saber quem sou, pra evitar. Eu desabei. Dancei com a solidão sem dar um passo. Deixei tudo pra amanhã pensando que amanhã não deveria acontecer.

Hoje é sábado e a louça de quinta ainda está lá. A roupa de quinta ainda está no chão. Me levantei apenas quando sabia que ia me perder ou na verdade, aliviar. Me levantei pra ver quem me faz existir. Eu quis dizer “volte sempre” com a certeza que eu voltaria sem que me pedissem.

Eu não lembro como terminaram as noites que a principio eram pra me divertir, e no final eu só queria fugir. De todas as escolhas que tive, a mais sensata foi dormir. Talvez eu esteja me agradecendo, talvez me lamentando.

Quanto vale o tempo de sacrifício? As palavras ditas, as não ditas? Quanto vale uma vida não vivida? Um sonho sonhado não concretizado? Quanto vale uma corrida que você não acha a linha de chegada? Quanto vale o amanhã que você tem medo de fazer parte?

Hoje eu acordei e quis morrer. A cena vai se repetir. Eu não sei até quando listar coisas será suficiente. Ninguém precisa de razão quando se tem coragem. Tudo depende de quantas doses você bebe e o que vem a sua cabeça. Não sei quantos abraços salvam. Minha respiração deveria ser o motivo da minha salvação. Ninguém salva ninguém, essa é a verdade. Ninguém precisa de ninguém. Eu não sou ninguém, mas eu preciso.

Disse que estava bem. Eu menti muitas vezes pra não causar preocupação. Acho que estou ficando boa nisso.

Me desculpem por isso.

Hoje eu desisti.

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