A solidão da nossa angústia

“Andando pela Avenida, ia considerando como é acabrunhador constatar que em torno de nós, homens e coisas não comparticipam da nossa aflição. Tudo fica indiferente e imutável, nada sofre a presença compacta da nossa dor, que transborda. O martírio é real, tem peso atômico, é palpável, tem forma, tem relevo, tem arestas, e é uma barra pesando toneladas de opressão. E essa dor não causa nenhuma indução em torno?… Não estende suas linhas de força no ambiente onde estamos? Pois então tudo fica, como antes e como depois, perfeitamente neutro e indiferente? Pasmamos, aturdimo-nos diante da borrasca que atroa no nosso espírito e que arremete. Perdemos a serena atitude de seres e o calmo ritmo de criaturas de Deus para nos transformarmos em massa dúctil nas mãos de Satanás, tomados de um paroxismo e de uma vibração mais intensos do que as convulsões que o tétano dá aos pobres recém-nascidos. E, enquanto vamos sem noção de tempo nem de espaço, verificamos, por intuição, nos homens todos em redor e em todas as coisas, a superfície fria e monótona da indiferença. Ninguém vê, ninguém percebe. Tudo corre como se fôssemos invisíveis, ausentes e imponderáveis. Pois é crível, então, que uma alma, essa coisa estupendamente vibrátil, na hora cruciante duma aflição inaudita, passando por outras almas não deixe no ar, como uma rotação de elétrons, de íons, um sinal físico de dor humana? Os homens em redor não percebem e passam. Os edifícios não tremem e continuam na rigidez vertical. E as próprias crianças, tão sensíveis, cujas almas registram tudo, nada sentem e continuam no deslumbramento.”
[Trecho do livro “A mulher que fugiu de Sodoma”, do escritor brasileiro José Geraldo Vieira. Comprei o e-book na https://www.amazon.com.br/]