Colonização brasileira: exploração e estigmas

Letícia Roessing
Nov 7 · 4 min read

Compreender os problemas sociais vivenciados atualmente no Brasil nos leva a refletir nosso passado colonial, período responsável pela radical transformação das relações sociais existentes no então território sul-americano. Como sabemos, antes da presença dos europeus em solo americano nos séculos XV e XVI, existiam aqui civilizações indígenas que viviam em comunidades, sem acumulação de riquezas que justificassem desigualdades sociais no formato que compreendemos.

De fato, caso a Europa não tivesse buscado outras regiões do mundo para favorecer suas relações comerciais e desenvolvido um modo de produção da existência baseado na acumulação de capital, teríamos uma história feita por caminhos diferentes.

Os séculos XV e XVI foram marcados pelo mercantilismo e relações comerciais com o Oriente, o que fez com que alguns dos países europeus, como a Espanha, Portugal, Inglaterra, França e Holanda, buscassem rotas alternativas para assim dinamizar as relações econômicas.

Desta ambição de encontrar alternativas de comercialização com o Oriente, resultou então o encontro entre os europeus e os nativos das terras que posteriormente foram denominadas como América. Tal alternativa de encontrar novas rotas para as Índias pelo ocidente do planeta desencadeou nas primeiras incursões europeias no continente. A partir deste momento, uma profunda modificação se inicia nas vidas das populações nativas, através do posicionamento invasivo e intransigente dos europeus.

A economia escravista colonial foi a principal forma pela qual a Europa conseguiu suprir o que faltava em sua economia. É importante destacar que a colonização brasileira transformou negativamente a vida das populações indígenas e africanas que aqui adentraram submetidas à condição de escravos. Cabe também ressaltar que a colonização foi a protagonista responsável por desviar as terras hoje brasileiras do lugar de palco de experiências civilizacionais indígenas para palco de experiências capitalistas periféricas, pois, dentro da bipartição capitalista explorador X explorado, fomos “apresentados” ao capitalismo na condição deste.


Como citado anteriormente, compreender a situação do Brasil atualmente requer analisar as condições que determinaram a colonização do país. O Brasil, como participante do mercado internacional, iniciou sua trajetória pela via da espoliação. Dentro da ideia capitalista, a desvantagem com relação às nações capitalistas europeias centrais e os EUA é explícita. Os EUA, apesar de ter sido forjado a partir de um processo de colonização, tiveram objetivos de ocupação bastante diversos dos nossos, no caso por meio de uma colonização de povoamento, ao passo que a nossa colonização foi de caráter exploratório, favorecendo as bases para sua constituição como potência capitalista do século XX.

O Capitalismo é um modo de produção da existência essencialmente hierárquica, pois consiste na acumulação de capital por meio da desigualdade entre pessoas, instituições e nações. Compreendendo as relações capitalistas internacionais, nota-se que a desigualdade se apresenta como fator estruturante na relação entre os diferentes países. É notória a distinção, por exemplo, entre países produtores e países consumidores de tecnologia. Países cuja relação com o modo de produção não é de protagonismo, como o Brasil, possuem conflitos sociais mais preocupantes. Existe uma relação proporcional entre o acúmulo de alguns e a escassez de muitos. Analisar o Brasil na sua relação com o capital é compreender a globalização como um fenômeno perverso e avassalador.

Antigamente as grandes nações mandavam seus exércitos conquistar territórios e o nome disso era colonização. Hoje as grandes nações mandam suas multinacionais conquistar mercados e o nome disso é globalização.

— Milton Santos

Nossos altos índices de desemprego e violência, assim como a precariedade visualizada na educação e na saúde, são retratos de uma história capitalista iniciada com o processo de exploração colonial. É certo que as mazelas do capitalismo atingem também, suas economias centrais, porém, no jogo das desigualdades, saímos mais prejudicados.

Paulo Freire, importante educador e filósofo brasileiro, ressaltou que a transformação social cabe aos oprimidos realizá-la. Os opressores, pela condição de agressores, não possuem os mecanismos de superação. Com base na reflexão anterior sobre a colonização do Brasil e suas consequências, percebemos que constituímos um país com grande potencial de contribuir para uma transformação, afinal não nos falta histórico de retaliação e exploração cotidiana.

A desumanização, embora seja um fato histórico concreto, não é um destino dado, mas o resultado de uma ordem injusta que gera violência nos opressores, o que, por sua vez, desumaniza os oprimidos.

— Paulo Freire

Letícia Roessing, n° 18, 2° ano 8

https://www.passeiweb.com/estudos/livros/raizes_do_brasil

https://jus.com.br/artigos/17319/nossa-heranca-colonial-e-consequencias-ate-os-dias-atuais

https://reflexaohistorica.wordpress.com/2013/10/16/a-colonizacao-do-brasil-e-nossos-problemas-atuais/

    Letícia Roessing

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