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Be My Eyes: aplicativo conecta mundos e possibilita novas experiências.

Letícia Assis
May 13 · 6 min read

Por: Letícia Assis

Os avanços tecnológicos têm causado grande impacto positivo na questão do acesso de deficientes visuais às redes sociais. Impossibilitados de enxergar o cursor do mouse, o usuário portador de baixa visibilidade utiliza-se apenas do teclado para poder navegar pela rede.

Na década de 1980 surgiram os primeiros programas que possibilitaram a acessibilidade desse grupo à internet. Um dos mais populares é o Jaws, um software de leitor de tela que permite que o usuário do sistema operacional Windows utilize toda a extensão da internet.

Embora integre os portadores de deficiências visuais ao meio cibernético, o programa ainda não se encontra em um patamar acessível à toda comunidade. Beirando à casa dos três dígitos, o sistema operacional ainda enfrenta dificuldade para tornar seu custo benefício mais alcançável.

Para quem tem necessidades visuais, mas não tem renda suficiente para adquirir o Jaws, a opção é o software DOSVox, desenvolvido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1993. Para os usuários interessados, o programa está disponível de forma gratuita na internet e garante atender aos padrões internacionais de acessibilidade.

Os avanços produzidos pela tecnologia a fim de integrar os deficientes visuais à rede se tornaram nítidos quanto à importância que os mesmos possuem na vida dos portadores. No entanto, a tecnologia móvel ainda tem muito trabalho a fazer de modo a simplificar a vida desse grupo em especial.

Atividades do cotidiano são verdadeiros desafios para as pessoas que possuem a visão debilitada. Ler a data de validade de algum produto perecível, escolher a lata de milho ao invés de ervilha ou acertar a combinação das roupas são tarefas habituais, mas que para os deficientes visuais ainda não é um ato prático.

Be My Eyes: levando visão para pessoas cegas ou com visão limitada

Pensando nessa necessidade do grupo e para descomplicar essas tarefas, o dinamarquês Hans Jørgen Wilberg inventou o aplicativo Be My Eyes, também disponível no Twitter. De maneira bastante simples, o aplicativo inova ao possibilitar que qualquer pessoa “empreste” suas habilidades de visão por um momento para quem não pode enxergar.

Com base e inspiração na função FaceTime do iOS — vídeo chamada entre celulares móveis — o aplicativo utiliza o sistema de câmera do celular dos deficientes visuais e conecta com voluntários que ajudam por meio da fala e orientações.

Plataforma utiliza a videochamada do celular para ajudar quem precisa.

Paloma Santos, deficiente visual, 31, é um exemplo de como o aplicativo pode tornar a vida desse grupo mais fácil. Morando sozinha há alguns anos, Santos teve de adaptar algumas coisas, mas nem tudo foi possível. “A minha casa é toda adaptada às minhas necessidades, no começo foi difícil, mas hoje eu não me vejo voltando para a casa dos meus pais, me sinto muito bem morando sozinha”.

Quanto ao Be My Eyes, Paloma afirmar ter sido de grande serventia em seu cotidiano, “Eu não conhecia o aplicativo, foi uma prima minha que viu em um grupo no facebook e me indicou. A princípio confesso que rejeitei um pouco a ideia, mas assim que usei a primeira vez mudei totalmente de opinião, o Be My Eyes me ajuda sempre”.

Santos perdeu a visão ainda criança, “passei a minha vida inteira tendo que pedir ajuda para os meus pais e as pessoas que estavam próximas a mim. Quando fui morar sozinha, muitas vezes deixava de fazer algo, como pegar alguma comida no armário, porque não queria ligar para ninguém para não incomodar. Com o Be My Eyes eu consigo descobrir que lata é a certa em questões de segundos e não preciso incomodar nenhum familiar porque as pessoas do aplicativo estão sempre disponível”.

Aplicativo ajuda pessoas com deficiência visual à realizar tarefas do cotidiano.

A interface do aplicativo se constitui de maneira simples. Composta por apenas dois botões, as funções disponíveis são: Chame o primeiro voluntário disponível e Ajuda Especializada.

A primeira opção, botão que ocupa mais da metade da tela do aplicativo, direciona o usuário ao voluntário mais próximo e serve para resolver problemas cotidianos em poucos segundos. Com essa plataforma, questões como descobrir se o leite guardado no armário já está vencido se tornou uma barreira vencida na vida dos portadores de necessidades visuais.

O segundo botão, em menor escala, é destinado à uma comunicação direta com um funcionário agente de suporte ao cliente. Como uma alternativa mais rápida e que oferece maior compreensão ao usuário, um representante treinado atenderá a ligação disposto a solucionar o problema de forma rápida e detalhada. O auxílio especializado está viabilizado apenas em 12 países com assistência para produtos e serviços da Microsoft.

Número de voluntário é muito maior que o de usuários.

Disponível em mais de 180 idiomas em 150 países, a plataforma mostra excelência no atendimento das necessidades do usuário. Contando com muito mais voluntários do que deficientes, até o momento, para os 128.224 usuários, existem 2.124.834 pessoas dispostas a ajudar. Por conta da oferta ser maior do que a demanda, de acordo com os responsáveis pelo app, o tempo de espera por parte dos voluntários não costuma demorar muito. Mais de 90% das chamadas são iniciados com menos de 60 segundos de espera.

A experiência para quem está do outro lado da situação se constrói de maneira diferente. A tela principal do aplicativo não possui muitas opções, o usuário consegue apenas visualizar quantos cegos e voluntários existem até o momento. No entanto, a aba “Histórias” prende a atenção com histórias reais de pessoas que utilizam o aplicativo, seja um deficiente visual ou um vidente — modo como o aplicativo chama as pessoas que enxergam.

Ana Caldeiro, 24, formada em Engenharia Civil, é uma das voluntárias do Be My Eyes e afirma ser uma das experiências mais incríveis que já viveu. Segundo a engenheira o processo foi rápido, porém gratificante: “Recebi ligação uma vez, o rapaz precisava de ajuda para ler a placa de um prédio, pois não tinha ninguém que pudesse ajudar e ele queria saber onde era a sala de documentação. Foi bem diferente poder ajudar alguém dessa maneira”.

Outra voluntária que só tem elogios para o aplicativo, é Isabelle Darsin, 20, estudante de Direito na UEL (Universidade Estadual de Londrina). Voluntária há mais de um ano, Darsin já atendeu duas ligações, “na primeira vez me pediram para que eu olhasse o prazo de validade de um produto que estava no armário, já na última era pra dizer a cor de uma camiseta”.

A universitária se declara uma verdadeira fã do projeto e afirma “acho incrível a ideia de poder ajudar o próximo fazendo uma coisa tão simples e utilizando meios tão fáceis. Nós estamos no celular o tempo todo, não custa nada baixar o aplicativo e atender a ligação caso apareça uma. A sensação de ajudar alguém é muito boa, são coisas extremamente simples mas que a gente não imagina como faz diferença na vida deles”.

A questão da navegabilidade por parte do usuário portador de necessidades visuais tem se tornado tema recorrente no meio virtual. Muitos sites ainda possuem armadilhas para os softwares especializados, mas soluções simples podem torná-los acessíveis à essa comunidade. Trocar algumas funções que hoje são delegadas ao mouse para o teclado, como a digitação de senhas, facilitaria a vida do grupo.

Confira agora mais um podcast do CTRL PUC com a participação de Gabriele Kimie em um bate papo sobre o Be My Eyes: