A cama é muito grande sem você

“Eu quis tanto ter você quando você não me quis e agora a gente é feliz, e ponto” (Música aqui)

Há um ano eu estava começando a ter consciência de que a cama era muito maior sem você. Algo estranho, já que você trabalhava muito e haviam períodos em que eu realmente te via pouco. Era uma puta sorte quando eu te encontrava uma vez por semana, ou quando você sugeria algo. Você era ocupado, me parecia ocupado, se dizia ser ocupado. E eu respeitava sua demora, sua falta de tempo e suas ocupações cerebrais diante de todas as ocupações mentais, para dar conta do que tinha que fazer no dia a dia. Por mais que eu soubesse que merecia mais tempo, eu respeitei o seu por dois anos. E a verdade é que você nem era tão ocupado assim.

A pessoa que quer estar na sua vida sempre arranja um jeito.

Foram 24 meses acostumada com a sua ausência temporária do lado esquerdo do lençol. Você gostava de dormir ao lado da parede e eu não me incomodava com isso, embora eu adorasse ter você me fechando contra ela. Era seguro e acolhedor não ter para onde fugir quando eu intencionalmente me deitava do lado esquerdo e esperava você dormir acidentalmente do lado direito da cama pra me levantar com cuidado e desligar a televisão — já que eu só consigo dormir no silêncio e você no barulho. E eu nem queria fugir de você, só do tamanho da coisa que eu sentia por você. Era assustador, porque eu me sentia sozinha e ainda assim permanecia. Eu esperaria por uma vida inteira você pegar no sono primeiro pra eu levantar e desligar a televisão.

Mas, há um ano, eu estava começando a sentir a cama muito maior do que ela costumava ser, porque eu estava com a sensação de que você não iria voltar. Era foda. Eu só deitava tarde, tinha pesadelos, tomava remédios para dormir e foi assim por algum tempo. Até que eu percebi que você não iria voltar mesmo, e o que você fez foi foda. Eu tive que aprender a dormir sozinha sem conseguir compreender como eu havia desaprendido.

Hoje eu lembrei disso quando troquei o lençol. A minha cama, que você não tinha tempo de deitar, é muito maior que a sua. E eu não a sentia tão grande como há um ano, quando eu deitava te esperando voltar. Ou te esperando me olhar. Ou esperando o momento em que você finalmente decidisse ficar. Foram tantas esperas diante de um ponteiro de relógio que pouco parava pra mim. Ou diante de uma correria que pouco queria descansar em mim. Eu nunca mais esperei você dormir para desligar a televisão e nem peguei no sono com a mão no seu peito pra sentir o seu coração bater nas minhas mãos. Eu tive tanto medo de perder tudo isso.

Por vários momentos eu pensei que deveria ter dado um jeito de gravar os seus batimentos cardíacos, você descolando a boca devagar enquanto dormia, a sua respiração pesada quando você fumava ou a sua vida em mim e o meu coração no teu. Entrelaçar nós dois no futuro para nós finalmente sermos nós. Depois eu ficava com raiva de mim mesma. Será que você merecia o play do meu gravador, a lente da minha câmera ou o papel do meu caderno dividindo a história de nós dois? E ainda sim, lá no fundo, eu te queria antes, durante e depois.

Vou falar mais uma vez que é pra você não esquecer: a pessoa que (não) quer estar na sua vida, sempre arranja um jeito.

O fato de você não ter voltado ainda machuca um pouco. No final das contas, você não foi tão legal assim. Tu deveria ter falado alguma coisa ou feito algo, sei lá, pelo menos pela história. Ou por mim. Ou por eu ser uma pessoa, sabe? De carne, corpo, veias, vísceras, pele, pêlo. Essas coisas sangram, entende? Mas não, você foi foda.

Hoje eu troquei o lençol e saí de casa não vendo a hora de voltar para dormir no silêncio, rapidamente, ocupando todo o espaço que o meu corpo merece da cama, por inteiro e sem peso algum no coração.

Agora o meu único medo é perder isso.

É bem foda pegar no sono sem esse vazio do lado esquerdo do lençol. Da cama. Do peito. Mas, mais foda ainda, é se sentir pronta para voltar a sonhar.

Chasing Cars — Snow Patrol
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