E o coração tão pouco dorme

Saramago

Fui te ver na segunda. Saí do trabalho e resolvi passar aí sem avisar. Na verdade, eu já tinha programado na minha cabeça que iria te ver, e deixei o tempo voar como é de costume dele mesmo e fui te encontrar no final do dia.

Quando eu entrei no quarto, você demorou para ver quem havia batido na porta. O seu acompanhante se surpreendeu com a minha visita, e eu pude perceber na entonação da voz dele, que ele ficou feliz. O som da voz é algo intrigante e, muitas vezes, pode dizer muita coisa sobre um sentimento. Mas, isso é conversa para outra dia.

Pra falar a verdade, eu fico com um puta medo quando me aproximo das coisas frágeis da vida. Sei que tenho muito o que agradecer, afinal são quase cem anos de batimentos cardíacos e dias vividos, mas ainda sim, eu adormeço todos as noites pedindo a Deus que me dê uns duzentos anos a mais com você. E eu não sabia muito bem que queria uns duzentos anos a mais. Acho que a gente nunca sabe.

A gente sempre sente que não vai ser capaz de seguir sem uma pessoa. Como continuar vivendo em um mundo sem aquela presença? Décadas se passam e a gente mal sabe como chegou até aqui com a ausência de algumas outras. Mas acontece.

E mesmo sabendo que a vida sempre continua e a gente consegue seguir em frente mesmo com a ausência de alguém, eu não quero perder ninguém. Quero todo mundo perto e próximo do meu abraço. Dizem que temos braços longos para nos despedir, já eu digo que nunca gostei nem da palavra “tchau”. Acho ela estranha, esteticamente feia e até um pouco ridícula. Isso mesmo: ridícula. Leio a palavra e já sinto uma raiva interna. Sempre tive dificuldade em dizer adeus para as coisas. As pessoas vão embora e fecham a porta, eu vou embora e deixo as janelas abertas.

Eu tenho muita dificuldade em lidar com a falta ou a possibilidade da ausência. Me abre um buraco no estômago. A verdade é que o tempo está fazendo efeito, eu estou crescendo e as pessoas grandes que costumavam me proteger estão envelhecendo e precisando da minha proteção. Quando foi que isso aconteceu? Ainda me sinto pequena em meio aos fios de neve que estão embranquecendo os cabelos das pessoas que me viram crescer, enquanto elas se tornam essa mistura de grandeza e fragilidade própria dos anos que sempre passam.

Mas, frágil e grande mesmo é o amor que eu tenho por eles. Quando a gente para e pensa no tanto de amor que sente por alguém, tudo fica mais profundo. Lembro de “Carta do Ausente” em que Vinícius de Moraes pede para amada ter cuidado, “porque o amor, de tão grande, tornou tudo frágil, extremamente frágil”.

Carta do Ausente — Vinicius de Moraes

Durante toda a minha vida, o coração dos meus familiares pouco dormiu. Os anos estão passando rápido e o amor, que de tão grande, está fazendo eu reconhecer tudo o que é valioso e frágil. Extremamente, extremamente valioso e frágil.

Letícia Cardoso