“Morre e nasce trigo, vive e morre pão”

A real de o por quê o amor não faz sentido.

Quem sente mais, quem se expõe mais, tende a sofrer mais. E quem não se expõe também, só não demonstra. Sentir não é sofrer. E não sentir, não é ser feliz.

Fui procurar a história por trás de “Drão”, do Gilberto Gil, e descobri que o cantor compôs para a ex-mulher alguns dias após a separação e tocou para ela algumas semanas depois de pronta, o que não mudou a decisão que eles tomaram. Talvez isso contribua muito para que as pessoas a enxerguem como uma canção de ruptura ou de um problema que fez o amor acabar, entre outras coisas. Mas não é só isso.

A letra traz coisas como “Drão, não pense na separação, não despedace os coração” ou “Drão, os meninos são todos são. Os pecados são todos meus” e vê que nisso tudo há mesmo um bocado de tristeza e melancolia. Fico pensando até no que se passa por dentro do Gil quando ele precisa cantar essa música ou dentro do Caetano melodiando “Quem poderá fazer aquele amor morrer? Nossa caminhadura …”. As criações são de uma natureza muito íntima.

Na sua análise de “Drão”, o amor não tem que acabar, estar desgastado e ter nos dilacerado para haver uma separação. E eu concordo, às vezes o destino infelizmente tem a péssima ideia de não deixar o sentimento ser suficiente. Mas, nem por isso o amor deixa de um dia ter sido amor quando a gente decide seguir sem o outro. Às vezes é preciso seguir sozinho, nem que seja pra perceber que a gente tem que voltar, ou que o necessário era só mudar de lugar.

Eu sinto que quando há uma separação, a gente só precisa esperar que o amor — ou qualquer outra coisa que você esteja sentindo — tome o seu rumo, ao invés de desejar que tudo acabe imediatamente. Os sentimentos simplesmente não tem disso. Eles costumam se silenciar discretamente de um jeito que a gente nem percebe: fazendo as malas no meio de uma noite qualquer e encontrando algum espaço no peito que não lateje tanto para se instalar, junto com todos os outros amores do nosso passado.

Bobagem essa história de que existe apenas um amor ou uma única alma-gêmea no meio de sete bilhões de pessoas. Todos os nossos amores, pessoas e épocas foram diferentes. E de algum jeito e sem medo é preciso dar um jeito de seguir em frente.

- O amor acaba? Porque eu acho que ainda não esqueci nenhuma das pessoas que eu amei.
— Se o amor acaba? No meu peito não.

Como você mesmo me disse, a gente leva alguns golpes, cria umas cascas e evita em ter um outro relacionamento ou sentimento, até que um dia encontra um outro amor assim: do tipo Drão. Porque a verdade é que Gilberto Gil foi muito mais inteligente e cantou o destino de todos os amores, mesmo com a separação: “Quem poderá fazer aquele amor morrer, se o amor é como um grão: morre e nasce trigo, vive e morre pão?” É como se não houvesse jeito. Que não adianta ter receio de se apaixonar ou de se envolver, porque isso deve acontecer com você e ponto. Isso vai acontecer com a gente várias e várias vezes.

Aceite o seu destino e não fuja, evite ou tenha medo de qualquer caminho que o sentimento venha a ter. Ele não tem que nascer, morrer ou ter um ponto certo para chegar, acabar ou ir embora, por que o amor é como um grão: quando vem, chega apenas querendo germinar.

Nunca se esqueça daqueles que te amaram de volta.

Letícia Cardoso

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