O amor é um porre em plena terça-feira

Ontem eu saí para beber com o Thiago. Isso porque há duas semanas ele me convidou para conversar sobre as coisas que a gente faz quando se apaixona por alguém. Com os nossos dois ou três anos de amizade, foi a primeira vez que saímos para discutir o fato de que nos consideramos adultos que não levam jeito algum para relacionamentos amorosos.

Entre uma história e outra, ele me contou de quando viajou seis meses pela Europa e mandou 15 cartões postais, um de cada cidade, para a menina que ele gostava. E, no final, ela não ficou com ele. Já eu, contei a história do livreto que fiz para o cara que me apaixonei e, no final, também acabei não ficando com ele. Abri ali, naquela mesa de bar de esquina, as páginas de um livreto artesanal com três ou quatro textos que escrevi, ingressos de lugares que fomos, fotos de viagens, entre outras coisas. Algo que, diferente dos cartões postais do meu amigo, não foi entregue. No meu caso, as coisas acabaram antes mesmo de eu finalizar o meu livro ou me dar conta do fim. Então, ficamos eu, o Thiago e o meu livreto incompleto na mesa daquele boteco pensando em qual parte do caminho a gente erra tentando ser incrível com alguém para que essa pessoa decida por ir embora.

Esquecer das horas, e acreditar. Sei que ainda amo, esse teu olhar

E foi mais ou menos o que eu conversei com o meu amigo no bar. Entre uma porção de batatas e alguns copos de vinho, ele me entregou o diário de sua viagem para que eu pudesse acompanhar a trajetória de seus seis meses longe do Brasil, somada à ideia dos cartões postais. Me pediu desculpas pela parte em que chama as europeias de “gostosas” ou sobre os comentários quanto aos “peitinhos deliciosos” e “bundas redondinhas” das moças. Tenho certeza que ele se apaixonou muitas vezes por lá.

Ao mostrar o meu livreto — que não tinha nem capa -, eu tive que explicar que o título se referia ao fato de que o meu cara tocava blues. Mencionei que a primeira página estava em branco porque eu planejava incluir um trecho de Jorge Ben Jor, e que o pôster na segunda página tinha a ver com o primeiro filme que fomos assistir.

Enquanto ele lia os meus textos, eu disfarçava o meu desconforto lendo a primeira história de um de seus moleskines, sobre um alemão bêbado que não parava de levar bronca da aeromoça, por dar indícios de que queria molestar a passageira ao seu lado. Disfarçava, porque era um pouco vergonhoso para mim alguém ler o tanto de sentimento que existia naquelas páginas que não foram entregues, então eu só me concentrei no diário de viagem que ele me emprestou.
 
 Agora, depois de tudo, o meu amigo quer os quinze postais de volta. Já mandou mensagem duas vezes, mas a menina responde que não tem tempo de encontrá-lo para entregar. Na mesa, quase um tanto alcoolizados, chegamos a duas hipóteses: Se a moça for uma filha da puta — porque, assim como os homens, mulheres também às vezes são -, ela jogou tudo fora. Entretanto, se ela não for, talvez não queira entregar os cartões, porque eles trazem uma lembrança bonita.
 
 Ao terminar de ler o meu livreto incompleto, o Thi comentou sobre o último texto e me perguntou se algum dia eu entregaria tudo aquilo para a minha inspiração. “Não sei, o que você acha?”, perguntei. “O que você faria se recebesse?”, ele disse. “Não sei, o que você faria?”, retruquei. “Também não sei”, ele rebateu. E ficamos os dois sem saber o que faríamos se esse tipo de coisa acontecesse conosco, ou se alguém nos enviasse quinze postais de cada cidade que passou. “Mulher é um bicho complicado” constatou ele. “Você fala isso porque nunca se envolveu com um homem”, rebati. Concordarmos um com o outro e brindamos a última tequila da noite.

Já na porta de casa, eu sinto o meu coração pesado e a cabeça latejando devido à minha falta de costume com bebidas alcoólicas. Entro no banho refletindo que o meu amigo merecia ter sido correspondido, mas depois chego a conclusão de que, apesar de tudo, ele deve ser feliz com apenas esta condição: a de realmente ter sido sincero e marcado a vida de alguém com um gesto bonito que, dificilmente, será esquecido.

Enquanto escrevo essas coisas, fico matutando se há algum sentido em sentar na cadeira e finalizar uma história que eu não queria nem que tivesse acabado. Há pontos finais que são difíceis mesmo de se colocar. Talvez seja por isso que eu ainda não preparei uma capa ou escrevi aquele capítulo sobre como é viver em um mundo fodido de coisas ótimas e coisas péssimas, e ainda assim, querer ser alguém que diz “te amo” — baseado em um trecho de “Feliz Ano Velho”, do Marcelo Rubens Paiva.
 
 Sem decidir sobre finalizar ou entregar o livro, eu me arrasto pelo quarto para apagar a luz e sinto o corpo completamente cansado. “Amor é um porre em plena terça-feira”, penso. E deito lembrando que preciso acordar cedo no dia seguinte para ir trabalhar. Desprezo as duas ou três lágrimas que teimam em descer pelo rosto e pego no sono com a cabeça pesada e o coração latejando.
 
 Isso porque, lá no fundo, eu sei que a minha dificuldade em terminar a nossa história está no fato de que você ainda existe, vivo e pulsando, dentro do meu peito e da minha memória.
 
 Letícia Cardoso


Originally published at vintediasemoutubro.blogspot.com.br on February 19, 2016.

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