(10–09) Transparentes: escrevemos o que sentimos, estudamos o que vivemos

Crédito: Unsplash

“Talvez você esteja fazendo um trabalho sobre algo que você sente. Acredite mais em você”, foi a última frase do meu primeiro entrevistado para o TCC. Eram 16h30. Quinta-feira. Dia de cinema. Véspera de jogo do Brasil e o hexa ainda era realidade nesse 2018.

Já faz um mês. Acho que quase dois. Comecei o dia pensando em como o decorrer das horas seria e nervosa pelo que se seguiria. Concluinte do curso de Jornalismo — e já não vejo a hora — e decidida a escrever uma reportagem como Trabalho de Conclusão de Curso, tinha duas entrevistas marcadas para este dia: um psiquiatra e uma psicanalista.

As perguntas estavam decoradas, papel e caneta à mão, celular para gravar, tudo certo. Mas nem tanto. A escolha da profissão já era desafiadora por si, dar a minha voz — ou os meus dedos — para dar voz a outras histórias. Eu nem sempre conseguia. Nem sempre era fácil.

Ainda tinha cerca de uma hora até a segunda entrevista. Liguei para minha melhor amiga, para minha orientadora. Como em meia hora um cara, que nunca tinha visto, me decifrou tão rápido? “Você acabou de passar por um escâner de alma!”, disse minha professora rindo com o meu nervosismo. O moço era lá especialista e perito no quesito.

A verdade é que a gente se denuncia e se entrega a ansiedade e a expectativa. Montamos a cena e todo o teatro de como esperamos a vida, o dia, o momento. “Aqui vai ter luz”, “aqui terão aplausos”, “aqui sobe e desce a cortina”, “vai acabar desse jeito”.

“Tudo bem, tudo certo, vai dar tudo certo”

Repetimos como um mantra e internalizamos o pensamento. Positivo. Adiante que em frente o tempo vai.

O problema é que nem todo mundo entende que tem dias e mais dias. Momentos e mais momentos. A mais simples das situações pode ser um problema. O mais longo dos prazos pode não ser suficiente. O ansioso pensa antes no depois. O depois já é agora. São dois dias em um. Vivemos ‘mais rápidos que ligeiros’. De uma vez.

Respirar. Pensar. Racionalizar. A sequência que inspira a calma. É um exercício diário parar. Impedir o pensamento frenético. Deixar os outros para depois — depois pra nunca –, porque eles não sabem. E entender que nem sempre os dias acabam bem e, ainda assim, está tudo bem.

Aceitar. Somos transparentes. Do olhar ao sorriso. Do gesto a postura.

E aceitar. Que o acaso vem a contragosto e, mesmo ele, contribui para a felicidade.

O dia não acabou bem. Mas o amanhã havia de ser outro, já dizia Chico Buarque.

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