Hoje estou acima do bem e do mal

Tônia Carrero, movida Pela Paixão, fotobiografia editada pela Imprensa Oficial de São Paulo

Tônia Carrero, Movida Pela Paixão (Imprensa Oficial de São Paulo): com esse título que traduz a essência de uma trajetória, inicia-se a leitura da fotobiografia da atriz Maria Antonieta Portocarrero Thedim, ou simplesmente Tônia, musa das praias cariocas, umas das mais célebres e belas personagens da dramaturgia brasileira. Consagrada por uma sólida carreira de sucessos no teatro, cinema e televisão desde os anos 1940, Mariinha (como era chamada por sua família e amigos próximos) passou por cima dos estereótipos da beleza e da fama e, hoje, ancorada pela experiência de seus 87 anos, diz: ‘não disfarço mais nada. Não quero que me achem linda ou brilhante. Hoje estou acima do bem e do mal’.

A fotobiografia, de autoria da jornalista Tania Carvalho, é recheada de citações de entrevistas de Tônia e também de depoimentos de grande personalidades sobre a musa. Entre os admiradores estão, além de Carlos Artur Thiré, Paulo Autran, amigo da vida inteira, falecido em outubro de 2007, a quem Tônia dedica o livro; Aníbal Machado, Paulo Mendes Campos, Guilherme Figueiredo, Fernando de Barros, Ronaldo Bôscoli, José Carlos de Oliveira e Carlos Drummond de Andrade. O poeta mineiro comenta uma alegria e perfila a atriz:

‘Chuvinha cinza-chata, dessas que sujam a manhã, mas ao abrir o jornal vejo sair dele um senhor raio de sol, que retifica a paisagem: nasceu uma menina. A menina é neta de Tônia Carrero. Tônia cada vez mais linda, mais artista, a ponto de obrigar a gente a não perder capítulo de novela de televisão, e a confessar que não perde’. (…)
Tônia, em cena do filme Chega de Saudade (2008)

Na inauguração da Sala Tônia Carrero, em janeiro de 2007, no Rio, Carlos Artur Thiré apresentou um texto em que explicava como é que uma pessoa pode virar teatro. Uma receita. ‘Para um dia virar teatro, você tem que, antes de mais nada, nascer a única filha mulher de uma família de militares: seu pai tem que ser militar, seus irmãos, todo mundo da família, menos você! Pelo contrário, você tem que ficar ali, quietinha, sem quase abrir a boca, e quando fizer 17 anos, virar uma mulher deslumbrantemente linda, e pimba, contra tudo e contra todos, casar com um artista e sair de casa deixando todo mundo de boca aberta. Levando com você, dali, só o apelido que vai te acompanhar a vida inteira em família: ‘Mariinha’’. Segue a isso o percurso de esforço, prêmios, peças, novelas, todo um caminho que acompanharemos na segunda parte dessa matéria.

Tania tem a sensibilidade de captar não apenas os momentos mais importantes na carreira da atriz, mas aquelas histórias singelas, guardadas no baú da memória, que marcaram sua trajetória. A dureza da mãe, os passeios com o pai, o carinho dos irmãos, a vida de casada, de separada, as traições, os amores, as viagens, o grande amor pelo filho Cecil Thiré (ator, com biografia também traçada pela jornalista), sua relação com os homens, com o sucesso e a beleza. Esta última aparece em seu relato de forma marcante. Uma citação diz: ‘beleza é poder, sexualidade é poder. Já senti esse poder bem firme nas minhas mãos e me dei mal com ele. Usei esse poder contra mim. Podia ter orientado minha vida mais seriamente se tivesse tirado a venda desse pequeno poder’.

Hoje, aos 87 anos, a atriz diz ter superado o ‘trauma’ com o espelho, tendo sido difícil aceitar que, agora, não tinha mais o corpo desejável de antigamente. No palco, porém, diz que rejuvenesce, pode viver uma mulher vinte anos mais jovem. A melhor coisa da idade, diz, é a liberdade de ação: ‘Digo o que bem entendo, e não tenho medo’.

Cecil Thiré, no programa de A Visita da Velha Senhora (2002), diz: ‘Cada etapa da vida é marcada por uma idade que varia de pessoa para pessoa. A infância pode se prolongar, a meia-idade pode vir mais cedo, etc. O que mais me admira ao observar a minha mãe ao longo da minha vida (já não tão curta; 60, ano que vem) é o ímpeto jovial (…). Alegre, generosa, sem nenhum tipo de temor diante da vida, assim a vi passar da jovem quase ingênua entrando na maturidade lenta e gradualmente e mantendo-se neste processo de amadurecimento enquanto os aniversários teimam em dizer a ela que esmoreça, abrande o ãnimo, diminua seu fogo, acomode-se e se recolha mediante o avanço da idade. Qual o quê!’.

Receita para Virar Teatro

Tônia, em Pigmalião 70. O corte de cabelo da personagem foi moda na época (daqui)

Os sucessos da atriz começam no Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, local onde também estiveram nomes como Nydia Licia, Sérgio Cardoso, Walmor Chagas, Cacilda Becker e o saudoso Autran. Com ele, Tônia interpretou sua primeira peça: Um Deus Dormiu Lá em Casa, sob a direção de Silveira Sampaio. Antes disso, já casada com o artista plástico Carlos Thiré, protagonizou o filme Querida Suzana, pela Vera Cruz, Companhia Cinematográfica, da qual foi estrela.

Junto ao segundo marido, o italiano Adolfo Celi, e Paulo Autran, Tônia formou a Companhia Celi- Autran-Carrero, que entre clássicos de Shakespeare (Otelo) e Peças de Vanguarda, como Entre Quatro Paredes (Huis Clos), de Jean-Paul Sartre e Frankel, de Antonio Callado, fez parte da geração que revolucionou a cena teatral brasileira. Temos a sensação de um transporte automático ao início da década de 50, em meio das peças dirigidas por Ziembinski, com os papéis de sucesso vividos pela atriz em Se Não Chover, de Henrique Pongetti e Cândida, de Bernard Shaw.

Em 1960, Tônia recebeu o Prêmio Governador do Estado de São Paulo de melhor atriz por Seis Personagens à Procura de Um Autor, de Pirandello. Já em 1965, cria a Companhia Tônia Carrero. Nessa mesma década, a atriz interpreta personagens de peso, como Neusa Suely, da peça Navalha na Carne, de Plínio Marcos, e ganha o Prêmio Molière e Associação de Críticos Cariocas.

Entre inúmeros outros trabalhos no teatro, destacam-se em sua carreira Macbeth, de Shakespeare, novamente em companhia de Autran, Casa de Bonecas, de Ibsen, sob a direção de seu filho Cecil, Doce Pássaro da Juventude, de Tennessee Williams. Sob a direção de Antunes Filho, fez Marta de Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?, de Edward Albee. Voltou a contracenar com Autran em A Amante Inglesa, de Marguerite Duras.

Na televisão, Tônia interpretou papeis igualmente marcantes, como na novela Pigmalião 70, em que o corte de seus cabelos foi modelo a nove entre dez mulheres brasileiras, recebendo, por homenagem, o mesmo nome.

Hoje, moradora do Rio de Janeiro, cidade que também guarda suas memórias, Tônia recebe de seu público a homenagem que muitos artistas brasileiros deixaram de receber. O reconhecimento por seu mais de meio século de trajetória foi expresso em alto nível, de acordo com o brilho e a importância de sua carreira. Pagamos uma dívida com essa grande atriz, na espera de que outros nomes do teatro, cinema e televisão brasileiros também recebam a justa homenagem e atenção merecidas.