Ser leitor: que diferença faz?

‘Reconheci o quanto ter-me tornado leitora me protegeu do vazio de que muitas pessoas são acometidas quando as portas dos shoppings se fecham’.
‘O Clube do livro foi um projeto desenvolvido nos anos oitenta em uma escola estadual do Rio — Luzia fundou em suas aulas uma espécie de clube em que os alunos tinham por principal obrigação ler, e ler muito’ .

‘Formar leitores e tornar-se leitor — prioridade em qualquer nível escolar e na vida’, essa é a afirmação provocadora feita pela professora de Língua Portuguesa e Literatura Luzia de Maria que dá mote ao seu O Clube do Livro — Ser Leitor, que diferença faz? (Ed. Globo, 2009). As mais de trezentas páginas de leitura são ligeiras, como se estivéssemos em uma conversa informal, o que não mascara a importância vital do assunto: a formação de leitores plenos como principal cerne da educação — não apenas técnicos, mas críticos, que façam da leitura elemento modificador de si e do mundo ao redor.

Somos sabidamente carentes de bibliotecas públicas e livrarias, sendo a escola um dos lugares privilegiados em que parte da população pode encontrar leitura. Acontece que muitas dessas bibliotecas são fechadas ao público ou subutilizadas pelas próprias instituições escolares. Ao mesmo tempo, professores de Língua Portuguesa preenchem suas aulas com leituras esquematizadas, sem conexão com as diferentes mídias e áreas do conhecimento, conteúdos maçantes que não proporcionam o crescimento intelectual do aluno, mas afasta-o (para sempre) dos livros. Não é difícil encontrar em redes sociais comunidades com declarações do tipo “odeio ler”, “odeio livros” ou “odeio aulas de português”.

Ciente desse quadro, a autora propõe comprovar a importância da leitura em sala de aula, capaz de mudar a perspectiva de mundo de um aluno que nunca havia lido um livro sequer. Para tanto, vale-se de argumentação apaixonada e respaldada em mais de 30 anos de profissão, contada em pequenos capítulos que nos obrigam a refletir sobre o que fazemos para adquirir conhecimento, divertir-nos, informar-nos… de que forma ‘exercitamos’ o nosso cérebro, mantendo-nos física e intelectualmente saudáveis. E os professores? Serão eles (nós) leitores capazes de transmitir o prazer pela leitura?

O Clube do Livro

O Clube do Livro foi um trabalho desenvolvido nos anos oitenta no Liceu Nilo Peçanha, escola estadual de Niterói-RJ, onde Luzia fundou o grupo em que os alunos tinham por principal obrigação ler, e ler muito. Essa não era uma leitura qualquer, mas direcionada e mediada pela professora, que indicou aos discentes do segundo e terceiro anos do ensino médio livros de ficção e não ficção, brasileiros e internacionais. Com o passar do tempo, os alunos também passaram a indicar os livros, aumentando assim a lista de leituras.

Acontecia assim: cada adolescente tinha uma ‘cota’ mínima de livros a serem lidos por bimestre, devendo resenhar cada um deles. Os títulos passavam de Carlos Drummond a Darcy Ribeiro. Alguns autores eram convidados a participar de conversas com a sala, estreitando os laços dos leitores com a obra, o escritor e o universo de cada história.

O ponto alto do Clube é justamente o depoimento de alguns dos alunos relatando a experiência do projeto e como isso mudou suas vidas. De Maria deseja provar que é possível, quando existe empenho profissional aliado à competência e paixão do professor, melhorar suas aulas e extrair o potencial de cada aluno:

‘Entre serena e feliz, plena e vaidosa de mim mesma, reconheci o quanto ter-me tornado leitora me protegeu do vazio de que muitas pessoas são acometidas quando as portas dos shoppings se fecham, quando os garçons, ansiosos por encerrar seu expediente, começam a empilhar as cadeiras no canto do restaurante, quando as luzes se apagam uma a uma impiedosamente. Reconheci o quanto passei de objeto de uma generosa doação a sujeito das ações que fazem de mim um ser de existência concreta, por ter a liberdade de fazer escolhas em um mundo que as limita para a maior parte das pessoas’ (trecho do depoimento da ex-aluna Márcia)

Fazer desse projeto as aulas de português foi ousado e deu certo. Alguns adolescentes, que nunca tinham lido um livro, chegaram ao número de setenta títulos em um ano, o que melhorou não só a leitura, mas também o repertório de cada um. Horizontes foram ampliados. Mais do que uma experiência de sucesso, o livro de Luzia de Maria instiga: professor, você também pode fazer isso.

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