a arte invisível

Leticia Feres
Aug 25, 2017 · 2 min read
‘Give or Take’, Louise Bourgeois, 2002

“sonhar com aipo e requeijão é promessa de luxo e sofisticacão.” não teve tempo de corrigir a cedilha. a primeira frase do texto. e o eco. “ão é ôé di u-u i ão.” o dicionário dos sonhos caiu. “ão.” e seu único objetivo de vida tornou-se o absoluto vital: colar o rosto ao chão, de maneira a metamorfosear o crânio em qualquer coisa que não pudesse ser atingida. refinado tornou-se seu estilo de respirar, mantendo a inspiração profunda apesar da enxurrada que vazava o coletivo. balas, não as do caminhão tombado. a bochecha começava a pinicar, esmagada contra o piso. uma coçadinha de leve seria algo suntuoso. aquela posição não era das mais confortáveis, mas permitia ver que a senhora de azul, que se contorcera até caber debaixo do banco, parecia calma. estado de choque, será? aliás, bonitas as unhas vermelhas da moça estirada à frente — uma visão mais entusiasmante do que a da última experiência de quase morte. entalada na churrascaria líder, morreria observando apreensiva o molho à campanha servido à parte. essa cor sem dúvida era mais inspiradora do que o pálido vinagrete. talvez devesse passar a pintar as unhas. foco. era uma boa cuidar de manter os braços ao redor da cabeça e a barriga colada ao chão. só faltava mentalizar a barreira azul para proteger os órgãos vitais. não era inédito seu afinco em passar despercebida. o escudo energético sempre ajudava. mas, e o original? dicionários de sonhos, terceira prova. foco. se escapar viva, enviará um email ao autor: “evitar eco em ‘ão’. ou, se desejar reforçá-lo, substituir ‘aipo’ por ‘salsão’.”

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