De Passagem, Alberto.

O relógio de Alberto lhe marcava os quilômetros.
Presente de Teobaldo, esse irmão de sua mãe o havia posto pela primeira vez não em seu pulso, mas em sua canela esquerda.
Não houve na época outro jeito para fazer caber o relógio naquele corpo franzino recém-nascido.
Nascera então no momento zero, quilômetro zero. Se ainda não caminhava por si, o tic e o tac marcavam os passos de quem o levava, os dois.
Demorou nada para quem o amava ver os metros virarem quilômetros até que o relógio não lhe coubesse mais bem nas canelas.
O dia em que lhe estreou nos pulsos, chorou. Era puberdade.
Mas, a distância não para. Ela se arrasta nos metros, corre nos quilômetros e depois voa! Até virar anos luz.
Foram tantos os dias de tédio e desvalor que, mesmo não sendo vividos por Alberto, foram quilometrados.
Aconteceu então que, à enésima potência, Alberto já não era mais o mesmo. A correia de couro que lhe amarrava ao pulso suas distâncias já se via gasta, quebradiça.
Foi seu relógio que lhe avisou a hora em que a distância iria para sempre virar tempo. A cinco mais caminhadas, os quilômetros voaram tão depressa que o corpo de Alberto já não pôde mais acompanhar e o que continuou, luz.
