Dona Rose

De repente Dona Rose aparece com suas 4 sacolas nas mãos. Uma mais pesada que a outra. Em um gesto de gentiliza me ofereci para ajudar a carregar a mais pesada. Assim, sem nenhuma pretensão. Não esperava reconhecimento dela, de Deus ou dos estranhos que observavam aquela velhinha e suas sacolas com indiferença. Era pra ser apenas até o último degrau da escada. Era pra ser apenas um carregar de sacolas. Era para ser apenas uma boa ação em um bom dia.

Acabou sendo mais do que isso. Durante 6 estações ela conversou, durante 5 estações falou sobre suas netas, durante 4 estações sorriu, durante 3 estações desabafou, durante 2 estações ouviu conselhos e durante 1 estação agradeceu. A diferença de idade entre ela e eu era aparente apenas quando vista de fora. O papo fluía, o assunto vinha e por incrível que pareça, eu era a voz da experiência daquele diálogo.

Dona Rose tinha os olhos alegres, nem parecia que ser a mesma mulher que enfrentou um dia de faxina na casa de uma família de japoneses. Dizia não estar cansada, apenas preocupava-se com suas sacolas e com o peso que carregaria na subida da estação até sua casa. Era fim de semana, o trem era daqueles novos, coisa rara na linha 7 da CPTM. Eu queria sentar, mas para isso teria que deixa-la sozinha. Me fiz de forte e fiquei de pé por 6 estações. Em meio a tanto assunto, mal senti o cansaço do qual me queixava, fiquei imersa naquela experiência, que apensar de não ser nova, sempre me fazia sentir como se tivesse fugido da minha rotina.

Cada vez que falava de suas netas, Dona Rose enxia suas feições de prazer e preocupação. Prazer em tê-las como netas e preocupação com o futuro de cada uma. Me pediu conselhos sobre faculdades e bolsas de estudo, viu na minha história algumas respostas que precisava.

Era pra ser apenas um carregar de sacolas por alguns degraus da escada rolante, mas acabou sendo uma terapia onde eu era a terapeuta e Dona Rose a paciente.

Falou de seus maridos: o pai de sua filha e o segundo, um homem bom, sem vícios, que gostava de carros, era mulherengo e pedia para que ela acordasse às 4h da manhã para fazer café “4h da manhã? Ah isso não”.

Falou de sua irmã e do marido dela que tinha câncer. Me pareceu que as duas tem uma relação de amor, mas um tanto atribulada. A irmã escolhe os dias em que Dona Rose pode ir a sua casa e Dona Rose por sua vez, se faz de difícil “Terça não, muito ruim pra mim”, mas acaba dando um jeito de visita-la. Ela suspeita que a irmã possa ter depressão.

_Aliás, eu já tive depressão

_ Que isso Dona Rose, alegre do jeito que a senhora é? Agitada e ativa… se teve, não terá mais.

Ela sorriu e “a moça do trem” falou: 
 _ Próxima estação: Pirituba.

Me despedi com o cuidado de não cortar seu diálogo. Ela agradeceu imensamente, me desejou sorte em todas as minhas batalhas, mandou um beijo pra minha mãe que ela nem conhecia. Sai do trem com o coração apertado. Naquela hora percebi que aquele carregar de sacolas me fez subir degraus que eu não conseguiria subir sozinha.

Obrigada Dona Rose.