A hora de partir

Encontrar um lugar para morar em Estocolmo é uma tarefa exaustiva e frustrante. Enquanto me mudava para o quarto lugar em menos de 1 ano, me dei conta de que tudo que tenho cabe em 2 malas. 32 anos em 2 malas. Pense nisso.

Bem antes de vir para Estocolmo tinha alguns planos para os meus early 30s. Na viagem do meu aniversário de 30 anos me peguei comprando toalha de mesa numa praia na Tailândia para receber os amigos no apartamento que planejava comprar alguns anos mais tarde.

Adoro fazer planos porque para mim é uma forma de sonhar e de pensar na minha existência no mundo. Isso me ajuda a fazer escolhas no dia a dia, enxergar coisas que não fazem mais sentido e ganhar coragem pra mudar. Depois vem a parte estranha e incrível de colocar o plano em prática. Como um bebê chupando limão que não faz ideia do que está acontecendo e é sacaneado por alguém, quando você está respondendo um whatsapp da amiga e rompe 2 ligamentos porque não viu o buraco na calçada ou quando você dá o primeiro pega num baseado e fica impaciente esperando a loucura chegar. A parte doída é admitir que o plano precisa mudar. A ruptura. O momento de romper. O repensar o plano, ou plano B (?). Traçar planos em tempos de crise. A crise em si. Processo doloroso, chato, de ansiedade, impaciência, frustração. É também admitir o erro pra si mesmo, é o sentimento de ter construído algo que não me vale mais nada, investido tempo em algo descartável, se sentir como um saco plástico voando pelo vento (ai Katy, já sabia).

Quando mudo muito rápido sempre ficou voltando, tomando decisões inconsistentes, lamentando o que poderia ter sido. Tudo errado. Se demoro para mudar, cada dia é um fardo, é difícil levantar da cama todas as manhãs. Uma inquietação fica remoendo e consumindo a energia a todo momento como aquele GPS do aplicativo que você nunca usa e acaba com a bateria do seu celular. Fico amargurada, rancorosa, invejosa, tudo de ruim. Tem gente que parece que passa longos meses ou a vida toda nesse modo. Sem coragem pra mudar, pra encarar o novo e se jogar na vida. É muito triste quando você (acha que consegue) consegue enxergar isso com tanta clareza, mas a pessoa não. Não importa quantas coisas você diga pra ela, simplesmente o coração não está aberto. De qualquer jeito, só eu sei o que é bom pra mim, de como eu preciso que as coisas funcionem para eu mudar de ideia, o que eu preciso fazer, como eu me reconheço, como me censuro. Só eu sei jogar comigo mesma. E é por isso que ninguém pode fazer isso por mim.

Às vezes eu não sei. Aliás, com frequência eu não sei. É difícil admitir que não sei porque o tempo todo eu me esforço pra saber. Sempre me cobro saber e gosto da sensação quando sei. É uma droga. Eu só sei de mim, só eu sei de mim e mesmo assim tem vezes que eu não sei. Tem vezes que eu só sinto. E vou.

Antes de vir para Estocolmo, pensei em tudo que tinha acumulado nesses anos. Acúmulos materiais e emocionais. Separei itens para venda, doação, as coisas que tinha dúvida e as que traria para cá. Em menos de 2 semanas já estava praticamente tudo resolvido.

É difícil deixar algo para trás, mas ficar parado é ainda mais difícil.

Esse é um post comemorativo do meu primeiro ano de Suécia.


The time to leave

Finding a place to live in Stockholm is an exhausting and frustrating task. While I moved to the fourth place in less than a year, I realized that everything I have fits in 2 suitcases. 32 years in 2 suitcases. Think about it.

Way before coming to Stockholm I had some plans for my early 30s. On the trip of my 30th birthday I got caught buying a tablecloth on a beach in Thailand to welcome friends at the apartment I was planning to buy a few years later.

I love making plans because for me it is a way of dreaming and thinking about my existence in the world. It helps me make day-to-day choices, see things that no longer make sense, and gain the courage to change. Then comes the strange and incredible part of putting the plan into practice. Like a baby sucking lemon that has no idea that he/she is being screwed up by someone, when you’re answering a girlfriend’s whatsapp and breaking up 2 ligaments because you didn't see the hole in the sidewalk or when you take the first puf on a joint and get impatient waiting to get high. The bad part is admitting that the plan needs to change. The breakdown. The time to break. The rethinking of the plan, or plan B (?). Making plans in times of crisis. The crisis itself. Painful, annoying, anxiety, impatience, frustration. It’s also admitting the mistake to yourself, it’s the feeling of having built something that is worth nothing anymore, invested time in something disposable, feels like a plastic bag drifting through the wind (oh, Katy, you knew it).

When I change too fast I keep coming back, making inconsistent decisions, regretting what might have been. All wrong. If I delay to change, every day is a burden, it is difficult to get out of bed every morning. An uneasiness mulls and consumes energy all the time like that application GPS that you never use and drains the battery of your cell phone. I get bitter, spiteful, envious, all bad. There are people who seem to spend long months or a lifetime in this mode. Without the courage to change, to face the new and to play in life. It’s very sad when you (think you can) see it so clearly, but the person doesn't. No matter how many things you say, the heart simply isn't open. Anyway, I only know what’s good for me, how I need things to work so I can change my mind, what I need to do, how I reward myself, how I blame myself. Only I know how to play with myself. And that’s why no one can do it for me.

Sometimes I don't know. In fact, I often don't know. It’s hard to admit that I don't know because all the time I struggle to know. I always push myself to know and I like the feeling when I know. It is like a drug. I only know of myself, only I know of myself and even then, there are times that I don't know. There are times that I just feel. And I just go for it.

Before I came to Stockholm, I thought of everything I had accumulated over the years. Material and emotional accumulations. I separated items for sale, donation, things I had doubts and what I would bring with me. In less than 2 weeks, everything was settled.

It’s hard to leave something behind, but standing still is even more difficult.

This is a commemorative post for my first year in Sweden.