Solecismos arbitrários da alma

“The Mirror” (Zerkalo) — Andrei Tarkovsky

Acho absurdo, em uma acepção de deslumbramento, como por vezes nas relações com os outros, perante obrigações sociais, jantares, encontros constrangedores no elevador e conversas de transporte público, cotidianamente contornamos ou definimos a nós mesmos por meio de frases cuidadosas e atitudes racionais, mas, por alguns minutos, ao escutarmos música — sozinhos ou acompanhados — de repente é possível se desnudar e ser mais de si do que em qualquer outro momento de manifestação de vontade ou de palavras bonitas e parafraseadas, isto é raridade.

No silêncio melódico vem entendimento, isso é a música para mim, para além de um conjunto de acordes, ritmos ou pestanas que nunca consegui reproduzir, música é auto compreensão, realismo e um exercício de se desnudar sem perceber ou premeditar. É sentir-se mais perto de si e de uma espécie de cerne do que o tempo inteiro inevitavelmente se é, por vezes sem saber ou reconhecer. É isso, talvez a música seja uma libertação sutil do que há de mais profundo e aprisionado no solecismo arbitrário da alma.

Talvez você só conheça realmente alguém ao ter silenciosamente, em linguagem de compreensão mútua não falada, compartilhado uma canção ao lado dela. Eu, por exemplo, vi a sua alma um milhões de vezes na medida em que a canção ressoou no cômodo e dissipou nossas fraquezas em clarões óbvios e, de certa forma, prematuros, hoje entendo. 
 
 Eu que estudo leis positivadas em ordenamentos jurídicos e falo tanto quanto escrevo poesia estou prestes a dizer que as palavras são insuficientes? Sim, talvez esteja. Não que discursos não sejam relevantes e que devemos abdicar de nossas teses, mas acho que nos falta dar certa vazão à subjetividade, nem sempre expressada por meio de palavras, mas antes contida no silêncio ou na melodia, e tudo bem se permitir ser complexo, inabordável e inenarrável a esse ponto.

(Esse texto também não diz tudo, e nem deveria).

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