Esperança nos pais (ou a desistência de lidar com pai homofóbico)

Depois de 70 dias, meus pais voltaram de viagem. Calhou de voltarem no dia dos pais, não pensei duas vezes e fui na casa deles matar a saudade. Domingo pós almoço de feriado, meu pai pergunta se eu conheço de verdade o menino que mora comigo.
Digo que sim, que conheço, somos bem amigos. Mas chega outra questão:
“-Ele é bichona?”
“-O que é bichona” — A gente se faz de desentendida pra não soltar um xingamento.

“-Você sabe, bichona”
“-Bichona é tipo uma gata grande?” — O deboche de nível infantil segue.
“-Bichona é aquele que faz assim” — Gesticula com os pulsos soltos, a la todos os esteriótipos de piadas homofóbicas.
“-Pai, graças a deus não tem ninguém com o pulso quebrado lá em casa, o que é bichona?”
“-Bichona é gay” — Depois de tanto enrolar ele finalmente falou, falou com tantas travas, como se usar o termo gay um xingamento, ao contrário de bichona.
“-Ele é gay sim”
“-Então ele leva outros gays pra lá?”
“-Sim, inclusive eu levo também”
Meu pai só bebeu mais um gole de refrigerante demorado, talvez pra tentar elaborar uma frase ou imaginando quando gay teria naquela casa. A discussão seguiu com ele dizendo que “ser gay é crime”, “Jesus vai voltar e você vai ver”, “é errado porque sim”, “porque sim” e “porque sim”. Dessa vez eu estava bem calma, apenas argumentando e com respostas debochadas, “me mostra na constituição pai”, “eu tenho certeza que Jesus ia andar com as lgbt tudo, bem firmeza no rolê”.
Passei anos brigando e falando que não é errado, que as pessoas não são erradas em amarem outras pessoas. Ele não ia mudar ali. E é notável como ele apenas reproduz isso, sem se questionar. Sei que ele não vai fazer mal pra ninguém além de mim, então, acabo aceitando e me retirando da mesa, pra não brigar com ele logo agora que eles voltaram de viagem. No momento me sinto bem ingênua de ter feito isso, mas algumas brigas são passáveis.
Voltei para o quarto pensando nas falas dele, mas ainda assim, estava tranquila. Quando peguei meu celular vejo a mensagem da minha namorada dizendo que o pai dela me convidou para ir na casa dele.
Me escorreu uma lágrima (ou muitas).
Eu tinha acabado de ouvir do meu pai que gay era crime, mesmo ele tendo noção de quem eu sou, enquanto meu s o g r o (eu ainda tô tentando lidar com esse termo) está me convidando. Caralho, o mundo ainda tem esperança sim. Tem gente que nunca vai abrir a cabeça, mas ainda bem que existem essas que conseguem.
Ser lésbica é resistir e se possível, ter esperança em dias melhores.
Ps.: esse texto foi feito apenas pelo pensamento que no mês dos pais, pais que muitas vezes cooperam pra meninas se sentirem pior em serem quem são e as reprimem, também é mês da visibilidade lésbica.