Virei casa e abrigo. Chamava-me de caixinha de surpresas, porque eu estava sempre sorrindo. Carregou-me, por ter sido carregado. Tomou de mim, meu mais singelo e reservado lado, que dificilmente demonstro. Eu não o forço. Ele veio sem que eu quisesse. Eu iniciei tudo isso visando algo tão vago, não era pra ter envolvido tantos sentimentos. Todos passos que eu dou, são desse tipo. Eu nunca quero me preocupar, mas me preocupo. Eu nunca quero ceder, mas constantemente cedo. Eu que fui, de novo. Você não conseguiu voltar pra lá, não é? O que vai ser de você?
Minha vizinhança tem um ar de cidade do interior, tem flores amarelas em meio aos arames farpados. Tesourinhas, Tucano-do-bico-verde, Bem-te-vi, Sabiá, João de barro. Ah, são tantos os pássaros. Meu pai, geminiano, não me ensinou tanto sobre eles. Nunca parou e disse isso ou aquilo. A sua paixão por todo esse universo foi compartilhada comigo, sem grandes pretensões. Imersa na natureza, fiz dela meu refúgio e abrigo mais íntimo. Aprendi a tomar meus rumos por mim mesma. Aprendi a escutar essa vozinha antes baixa e rouca. Ela quer que eu viva. Ela quer que eu faça as coisas por mim.
Algumas vezes, eu presencio nebulosidade mental e minha visão fica turva. A única coisa que vem em minha mente é “você precisa relaxar, vamos meditar.” Sabe, podem dizer que eu me escondo, eu gosto de estar fora do campo de visão no cotidiano. Mostro-me nas criações, fotografias e para quem eu quero que me veja. Na correria do dia-a-dia, tento forcar-me nas atividades que a mim são encarregadas. Tanto pessoais, quando profissionais. Perco olhares, tropeços e algumas palavras. Atento-me às pessoas, porque tudo pode vir a ser escrito em prosa ou quem, sabe poesia. Nunca te entendi. Na verdade, quase nunca entendi nenhum de vocês.
Eu demorei para aprender a receber, então qualquer afeto vindo, parecia mentira. Parecia forçado. Será que querem meu dinheiro? Será que querem que eu faça a tarefa de casa? Será que querem que eu abra um pote de azeitonas? Infinitos pensamentos na bolha. Você me abraçar em meio ao centro da cidade, aquietou todas as incertezas. Você gostava de mim. Eu deveria ter aprendido, nem sempre isso vai ser o suficiente. Te observava constantemente. Quantas outras você não gostava simultaneamente? Mesmo que fosse só uma, duas, ou três, não importava. Eu não iria conseguir tolerar. Naquela época, eu queria você comigo. Demorei pra perceber isso, por isso perduramos quase a estação inteira. E com o desabrochar das flores, eu decidi partir. As coisas estavam boas pra você. Pra mim, elas desbotaram e ficaram no inverno.
Pergunto-me de fato, se foi tudo aquilo. Talvez, eu tenha desencantado. Talvez, fosse só uma pequena projeção que passou despercebida. Talvez fossem as nossas pintinhas tão iguais na lateral de nossos rostos, que ornam com uma das minhas músicas preferidas, That the freckles in our eyes/ Are mirror images/ And when we kiss they’re perfectly aligned. Eu estava tão feliz. A depressão parecia ter me abandonado durante meses, você me apareceu como um postal que eu gostaria de revisitar. Eu faço as coisas. Deixei uma espécie de bilhete virtual, eu sempre tento. Eu sempre faço. Às vezes isso me irrita e me frustra. Eu penso ser a única disposta. Eu não confio na disposição alheia.
Eu me enganei. Aquela música não era nossa, nem nunca seria. Os sentimentos desapareceram em pouco tempo. Afastei-me de toda e qualquer lembrança sua. Eu estava sozinha lá, sabe? Você estava em outro tempo. Eu não importava tanto. E eu não o culpo. É difícil encarar a si mesmo, sem o apoio que antes nunca havia sido abandonado. Por isso, aquele dia, não retribuí seu abraço. Dei as costas e fui embora. Porque eu jamais conseguiria. Porque aquela vida não era a minha. Porque depois de me tirar de tantos fundos de poço, eu enfim aprendi. Eu não posso esperar ninguém. Os lobos a minha espreita, o tempo todo, uivando pra eu jamais esquecer o meu caminho. Não há saída, que não seja essa. Seguir. Impermanência. Ao meu lado, caminham dois lobos, o tempo todo. Mesmo só, eu não me sinto só.
A tristeza tornou-se rastro. Por enquanto, o bem-estar predomina. Não acredito que será sempre assim. Não acredito em felicidade eterna, nem na partida permanente da tristeza. Ela voltará. Voltou dias desses, mas logo despediu-se. A euforia também, veio e logo passou. Fiquei envergonhada por infinitos episódios. A vergonha dissipou-se e agora, balanço meu corpo enquanto escuto a música que nunca foi nossa. A porta estava fechada para mim. Ao invés de forçar o trinco, como sempre fiz. Dei a volta e fui embora. Não quero nada que não me queira de volta. Não quero nada que não me queira de volta.
