Nosso tempo de sofrer e nosso tempo de ser feliz

Todo mundo passa por isso, né?!

Nossa vida é feita de ciclos. Mesmo assim, nunca paramos para pensar na sua brevidade. Vivemos como se fossemos imortais e não o contrário. Talvez por isso sofremos por tanta bobagem. Digo isso porque também me pego me martirizando por besteiras, alguém que foi indelicado, a conta que não sei como vou pagar, a casa impecável ontem que está uma bagunça hoje. Sofremos porque o carro quebrou, a máquina enguiçou, o gato ficou doente e acabou com o restinho de dinheiro que você contava. Sofremos porque a vida não é fácil mesmo. Quando abrimos a geladeira e ela está vazia, assim como seu estômago, porque nosso filho pede para comer algo quando não temos dinheiro para comprar, sofremos porque estamos entediados ou porque não temos tempo para nada, enfim, a maioria de nós está sempre reclamando. ( eu sou uma delas).

Nosso tempo de ser feliz vem de uma notícia boa, um dinheiro extra, o nascimento de um filho, se sair bem numa prova, se sentir bem sucedido, adquirir algo que se quer muito, enfim… são gotículas perto na nossa realidade do dia a dia.

Mas e quando chega o nosso ciclo de sofrer por um acontecimento realmente ruim?! Como reagiremos? Se um simples intempérie já nos tira do eixo?!

E quando as provas duras da vida acontecem, elas parecem vir em doses cavalares.

Soube ontem de um acontecimento que me chamou a atenção.

Do princípio: uma conhecida, uma mulher muito bonita e de alto conceito numa sociedade de uma cidade pequena, perde seu filho de 4 anos num descuido, afogado na piscina ( e nem era uma piscina, era um chafariz )de sua casa de campo. Sem querer julgar, mas criança de 4 anos num lugar com piscina não combinam.

Meu Deus, essa mulher ficou praticamente de cama por 1 ano. Teve meningite, que segundo os médicos, foi psicossomática. Todo ano na data do acontecimento algo sério a acometia. Até que ela conheceu Mayron. Um garotinho de 5 anos, aidetico, um menino que fugiria completamente dos critérios de adoção. Mas assim ela o fez. E adotou Mayron, que chegou raquítico, mal cuidado, doente, arredio. E ela cuidou, amou, seu soro positivo zerou, ele ganhou peso, amigos, uma família de renome na cidade. E a vida seguiu… mas em suas esquinas, lá estava ela, a maldição do nosso tempo, as drogas, o crack. E o puxou pelo pé. Não só ele como também seu filho mais velho, que se formou tão cedo em direito mas ela também o cercou, e ele esteve internado várias vezes, assim como o Mayron. Tentaram o CAPS da cidade, onde ele ia para buscar medicamentos e às vezes conversar com o psicológo mas não era assíduo. Pois, a última notícia que tive dessa família era que o mais Velho estava internado e o Mayron seguia em tratamento no CApS , estudando, seguindo a vida.

Dois dias atras, o pai do Mayron perdeu a mãe, vi pelo face a foto de luto nos parentes ( alguns são próximos a mim), mas ela já estava bem idosa, e 3 anos atras seu filho mais velho se suicidou com um tiro na cabeça ( cunhado da pessoa a quem me refiro) mas a mãe sempre achou que foi infarto, a família optou por não contar.

Tá , Dona Fia se foi. Figura notória da cidade, foi se encontrar com seu amado marido e seu primogênito. Para quem já teve tanto dinheiro, no final da vida, morava de aluguel sob os cuidados da filha mais velha, mas sempre cercada do carinho dos outros filhos e netos. Deveria estar beirando os 90 anos, o que não importa, nunca estamos preparados para perder quem amamos.

Ontem, ao entrar no face já tarde da noite, me deparo com a mesma página de “luto”, desta vez se dirigindo à referida, esposa do que perdeu a mãe a 2 dias atras. Penso comigo: – nao pode ser por causa da D. Fia, já está indo para o terceiro dia e as mensagens são de 2 horas atras. Não gosto de bancar a curiosa, mas como tenho pessoas relativamente próximas a eles, perguntei inbox a uma amiga o que estava acontecendo. Então ela me fala que o Mayron tinha acabado de suicidar pulando da sacada de sua casa.

Não, eu não consigo imaginar tanto sofrimento em apenas uma semana. Ela perde a sogra e 2 dias depois, o filho se mata.

Já vi situações parecidas, com o primo do meu marido que veio de longe para o enterro do pai e no dia da missa de sétimo dia, sofreu um infarte e se foi.

Situações assim, pancadas atras de pancadas. Nem levantamos direito da onda que nos afogou e outra onda nos arrebata.

Então refletimos, nossa, que sina dessa mulher, quanto sofrimento… e nós achamos os mais sortudos da terra, porque nossos filhos tem saúde, nossa mãe já de idade esta bem e por hoje somos solidários a dor do outro e esquecemos de focar ao que não é para nos fazer sofrer. Mas logo isso cai no esquecimento e voltamos à rotina de matar um leao por dia, alternando dias bons com dias nem tão bons assim.

E quando chegar nosso ciclo de lidar com o sofrimento daquele que não se resolve? Que um Rivotril não vai fazer nos parar de pensar?

Bom, cada um tem seu fardo para carregar. Não digo que meu fardo seja leve, mas também não é tão pesado, somos hipossuficientes monetariamente e contamos com a ajuda de familiares para nos mantermos. Exonerei de um cargo público nessa minha cidade natal e viemos para Cabo Frio atras de novas oportunidades, e só agora meu marido conseguiu um emprego, mas temos um teto que pertence a minha família, portanto, fugimos do aluguel, mas sempre vivemos contando com pouco. Já ouvi do meu filho de 12 anos: – Mãe, nós não estamos vivendo, estamos sobrevivendo. Então disse a ele: -filho, temos onde morar, temos o que comer, você tem seu videogame, temos saúde, sua avó está bem, não podemos reclamar.

Mas ele sabe que eu reclamo. Ter TDAH não é legal e os problemas às vezes vem com lente de aumento. Sofremos antecipadamente por algo que nem sabemos se vai acontecer. Mas é químico. Está no cérebro. Queria ter dinheiro para pagar uma terapia para trabalhar melhor as comorbidades que o TDAH me trouxe, mas meu orçamento não permite. Então vamos nos virando como da, tentando achar a felicidade onde ela realmente está, no sorriso de um filho, ao marido voltar bem do trabalho, ao falar com sua mãe e saber que ela está bem.

Não sou a pessoa mais feliz do mundo. Mas tento trazer alegria ao meu dia a dia. Tento fazer meus filhos pessoas do bem. Não almejo muita coisa. Quero ter uma vida tranquila, sem muito sobressaltos. Quero ver meus filhos felizes , quero poder ter a sorte de conhecer meus netos. E morrer bem velhinha, sem presenciar tragedias deste porte. Quero que a droga passe bem longe da minha porta, e que meus filhos sempre voltem bem para meus braços.

Dizer que vou tentar não pensar no futuro e me angustiar com ele pela minha situação financeira chega a ser uma heresia. Mas podemos tentar viver um dia de cada vez e ter a sorte de acordar vivo no outro dia. E se por acaso não, que não seja por nossa escolha.