Leticia Monteiro
Nov 2 · 3 min read

Sobre o que não existe mais de nós

Então você me viu… desta vez antes de eu te vir…

Entrei no banco tão apressada, horário de almoço, não podendo me atrasar.

Talvez você tenha me visto desde que eu estava lá fora… talvez não.

Eu pedi licença para passar pela fila para obter informação em um lugar próximo. Quando de repente, senti alguém me olhar…

É impressionante como sentimos quando alguém nos olha, não?! Como se essa energia chegasse até nós sem nos pedir licença.

Então olhei para trás. E lá estava você. Olhando em meus olhos.

Segundos foram congelados como quando damos “pause” em um filme qualquer.

Você olhava diretamente dentro de meus olhos. E eu demorei um pouco para voltar a mim , apesar de ter te reconhecido imediatamente. E como não reconheceria, depois de termos partilhado praticamente tudo um sobre o outro por cinco anos? Cada detalhe, gosto, voz, discussão, confissões, de uma história tão intensa e conturbada.

Eu congelei e te olhei de volta praticamente sem querer… como por acaso.

E , como se alguém estalasse os dedos, voltei à mim e em segundos , sem saber se dizia oi ou se simplesmente me virava, como faria com qualquer desconhecido, inconscientemente ergui minha cabeça , empinei meu nariz e virei o rosto como um recado: – aqui você não entra mais!

E , sinceramente, minha atitude me surpreendeu. Não talvez mais do que a sua.

Surpreendi-me com minha atitude pois foste meu sonho inalcançável por anos, aquele por quem tanto me doei e em somente dor ficou daquele amor tão urgente que eu nutria por você. Surpreendi-me em ver como envelheceu, e por fim não é mais aquele “ Deus grego” onde todas caiam em sua rede. Ao contrário, pela primeira vez, me senti mais bonita que você. Pelo menos mais segura. Minhas pernas não bambearam, meu coração não disparou. Eu virei o rosto e segui sem olhar para trás. Ao sentar, vi que ainda me olhava, e me distraí conversando com uma amiga e pela primeira vez, não era para chamar tua atenção. Isto realmente não importa mais.

Sim… agora posso dizer que te encontrar tão casualmente e pela primeira vez depois de 15 anos sem te ver, você foi sim, mais um na multidão.

Não mexeu com meu ego, ver o contrário acontecer… você procurando meu olhar.

Não mexeu comigo te encontrar assim ou assado, sem me importar se estava bem ou não e sem me despertar a vontade de te contar sobre minhas aventuras e desventuras todo este tempo em que não soubemos mais nada um do outro.

Depois de ser atendida, e focada naquilo que havia ido fazer, ao descer para o meu trabalho, cruzo novamente com você, ao me olhar dentro de um carro.

Quem diria que esta curiosidade, um dia partiria de você, e … olha só… a porta estava fechada.

Não havia uma brecha para penetrar.

Com meu olhar altivo, segui meu caminho, não com a cabeça baixa e estraçalhada quando como você me deixou, mas com a certeza de que o melhor para mim foi ter sido alvo de tua crueldade um dia. Pois ela foi a responsável por hoje eu não ver em ti, nada do que fomos um dia. Como uma pessoa que não existe mais, que talvez eu tenha criado, ou minha imaturidade tenha se deixado levar pelos seus 9 anos a mais de experiência e toda sua arte de sedução.

Pois é… ela não existe mais. Não para mim. Olhar para você nem estranho foi, tirando os segundos congelados.

Eu não fui mais uma na multidão para você, como um dia já me senti.

Mas sim, você é mais um na multidão.

E não mais alguém inatingível, o sonho inalcançável.

Alguém que eu não conheci, não conheço e nem quero conhecer.

Foi isso o que restou de nós. E confesso: me fez feliz em poder enxergar que o inalcançável teve enfim, seu fim.