Por que nos sentimos fraudes?

Faz um ano e meio que eu faço yoga duas vezes por semana e essa rotina me ajudou muito em várias coisas. A principal é que desde que eu comecei as aulas eu quase nunca mais tenho insônia (em compensação, se eu passo umas 2 semanas sem praticar eu logo logo tô rolando na cama). Dizem que o yoga ajuda você a ficar mais em sintonia com você mesmo, o que não é a mesma coisa que “ficar zen”. As vezes eu volto da aula cheia de energia e pronta pra fazer qualquer coisa, tem dia que eu volto super tranquila, acendo velas perfumadas e vou tomar um banho longo e relaxante, tem dia que me dá uma vontade repentina de chorar durante o relaxamento final. Ficar em sintonia com você mesma é sempre uma surpresa.

Apesar de sentir os efeitos e conseguir listar zilhões benefícios do yoga, eu ainda me sinto uma fraude quando pratico. Tenho uma dificuldade enorme de me concentrar, com frequência eu passo os momentos em que eu deveria meditar pensando em coisas como esse texto que vocês estão lendo. Eu sou boa nas posturas de equilíbrio, mas sinto que eu deveria estar mais flexível, e ainda estou até hoje tentando fazer uma invertida sozinha. Yoga é um negócio louco porque te obriga a aceitar vários limites seus mesmo quando você se compromete a tentar ultrapassá-los. Tem um quê de determinação que é necessário pra você conseguir fazer as posturas mais difíceis, porque se você não se concentrar e tentar, elas não vão chegar sozinhas. Mas também exige muita paciência porque várias posições são um processo longo do seu corpo e sua mente se acostumando com a ideia de você fazer coisas novas. E mais ainda, você precisa conseguir abstrair aquela pessoa que entrou na turma meses depois de você e hoje já consegue fazer quase tudo super bem, e aceitar que a corrida ali é com você mesma. Nada fácil.

Quando me senti uma fraude no yoga ontem, fui obrigada primeiro a aceitar que uma das razões para eu estar me sentindo daquele jeito era justamente o fato de eu estar pensando em besteiras como síndrome do impostor ao invés de me concentrar na minha respiração, que é o que a professora estava pedindo para eu fazer. Mas depois também fiquei pensando sobre como nossa noção de se sentir uma fraude está relacionada com a identidade que achamos que temos, a que desejamos ter, ou a que decidimos que não merecemos.

Por exemplo, eu nunca fui uma pessoa ~natural~ e por anos achei que jamais ia me dar bem no yoga — até tentar. Eu vejo o pessoal da aula comprando manteiga ghee ou conversando sobre receitas veganas e sei que não tenho nada a ver com aquela identidade que combina tanto com a prática e que muitos ali abraçam naturalmente. Mas isso não significa que eu deveria virar um deles. Afinal se yoga é sobre se conectar com você mesmo, não faria sentido nenhum eu me conectar com um eu que não existe.

Identidade é uma tema que me fascina e me assusta ao mesmo tempo. De tanto vivermos num mundo líquido que se transforma a cada instante, mais tentamos nos agarrar a uma identidade que possa ser um alicerce de algo. Você não tem mais segurança de começar uma vida adulta e Ser Algo que você vai continuar Sendo até casar, ter filhos e morrer (o que é ao mesmo tempo libertador e profundamente desestabilizante). Vale cada vez menos usar: sou jornalista (porque é só até o passaralho), sou escritora (na internet conta?), sou formada na faculdade tal (e…?). Então por que não falar: sou de esquerda, sou de direita, sou feminista, sou fã de anime, sou uma pessoa dos livros, sou uma pessoa das séries, sou uma pessoa do Twitter, não sou do Facebook.

Essas caixinhas estão aí abertas para qualquer um ocupar, e a esperança é que uma delas se torne um espaço bem confortável para quando você está perdido e não sabe para onde ir. Elas também estão a venda. Estou lendo um livro bem interessante sobre publicidade chamado Black Ops Advertising, da Mara Einstein, onde ela detalha como hoje o marketing se confunde não só com jornalismo mas com absolutamente todo tipo de conteúdo que a gente consome. Toda marca quer virar uma “lifestyle brand”, que demonstra para os consumidores como ela se conecta com os seus valores e estilo de vida. “O branding de estilo de vida ocupou um vazio nas culturas, agora que não somos mais definidos pela nossa família, por nossa religião ou por nossos empregos, que tendem a ser mais frágeis.”

Um dos livros mais interessantes que eu li ano passado — ainda que não seja o melhor –, foi Infomocracy, da Malka Older, sobre um futuro próximo onde quem controla a informação domina melhor um mundo organizado em microdemocracia, dividido em “centinels”, agrupamentos com população de 100 mil pessoas onde você pode votar em qualquer partido do mundo. Esses partidos, nesse futuro, são dos mais variados e específicos possíveis: socialistas, capitalistas, maconheiros, fandoms, resquícios das nações e, entre os mais poderosos, grandes corporações. Mas o layout é uma fragmentação extrema, com o governo de onde você mora podendo refletir uma identidade altamente específica.

Eu cada vez que paro pra ler e pensar um pouco sobre o mundo acho que nós estamos num momento de transição muito forte e que vamos ser uma geração meio entressafra entre pessoas que viram o mundo mudar mas ainda tinham algo a se agarrar, e as pessoas que já crescerão e saberão lidar com essa sensação constante de fluxo. Faria sentido pensar que essas identidades e rótulos pudessem ser trocadas com fluidez e facilidade já que o mundo é líquido e inconstante, e isso acontece, mas ultimamente parece que as pessoas estão sentindo uma necessidade cada vez maior de fazer o contrário, e se agarrar a elas a qualquer custo. E essas identidades podem ser algo inofensivo como ser muito fã de um produto de cultura pop, algo custoso mas essencialmente individual como ser adepto de uma marca de celulares, ou algo destruidor quanto acreditar que raça branca é superior. Fica muito mais fácil radicalizar e ser radicalizado nesse mundo.

E parece que é também nele que a não-radicalização, a postura de saber seus limites e manter a mente aberta para descobrir suas novas facetas e suas novas identidades, pode se confundir com ser uma fraude. Se não dou tudo de mim para ser algo, eu sou mesmo aquele algo? Tem tanta gente mais intensa e expert nisso do que eu! Quem sou eu para dizer que sou como eles? E quem é essa pessoa que acabou de chegar na noite dizendo que entende tudo daquilo? Vou atacá-la para expor que na verdade a fraude é ela.

Identificar nossos limites é importante, respeitá-los mais ainda, mas mais essencial é não procurar por eles nos outros, porque o efeito de fazer o contrário pode ser destrutivo para todo mundo. Com isso, fica mais fácil abraçar também a verdade de que todos somos fraudes em alguma coisa, e tudo bem. Talvez mais útil do que procurar a caixa exata para você se abrigar seja fazer esses espaços se expandirem o suficiente para serem mais do que um abrigo, e sim uma comunidade de verdade.


Publicado originalmente via tinyletter.com, na edição #32 da newsletter femrecs, que você pode assinar aqui.