O que te faz feliz

Ontem, durante uma aula de filosofia na qual, confesso, não estava prestando muita atenção, o professor pediu que escrevêssemos sobre o que nos faz feliz. Não sei de onde isso surgiu, pois não estava prestando atenção, só decidi que não iria fazer a tarefa, ao invés disso desci e comprei chocolate. Quando desci vi que as três colegas de quem sento perto tinham terminado a tarefa, uma delas, que odeia filosofia e não é tão fã de escrever, passou de uma página, a outra escreveu apenas uma frase e a última escreveu meia página. Não sei o que elas escreveram, mas aquilo me fez pensar. A primeira, que detestava aquela aula e trabalhos daquele tipo, deixou isso de lado e escreveu mais do que uma página sobre aquela pergunta simples. Não vou mentir, ás vezes penso mal dela, penso nela como simplória e pouco criativa, mas para escrever tanto assim sobre o a que a faz feliz, ela deveria ser bem feliz. Sempre me gabei do que escrevo, inúmeras pessoas, incluindo professores, não se cansam de me elogiar nesse quesito, e sempre fui muito criativa, mas feliz faz tempo que não sou. As mãos dela, daquela menina que eu subestimava em vários momentos, deslizaram pelo papel e escreveram sinceras enquanto eu descia as escadas com a mente vazia indo comprar algo para preencher o meu vazio e fazer mal ao meu estômago. Naquele momento não importava o quão boa minha escrita era ou o quão criativa sou, eu não tinha o que dizer.

Quando voltei para sala, o professor me fez a pergunta em voz alta, vendo que eu não tinha feito, e nem pretendia, fazer a tarefa. Não sabia o que dizer e não queria dizer que nada me fazia feliz, embora essa fosse a verdade, então disse a primeira coisa que me passou pela cabeça, só para fazer com que ele me deixasse em paz. Minha resposta foi “o que me faz feliz é chocolate barato, ao contrário desses fininhos que custam muito”, minhas três colegas riram e o professor fingiu rir, como se soubesse o que eu estava fazendo. Ele insistiu na pergunta e eu repeti essa resposta. Tentei pensar em algo, qualquer coisa, que me fizesse feliz, mas nada veio. Pensei em coisas que já me fizeram feliz, apenas para constatar o quão indiferentes sou à elas hoje.

Sofro com a depressão faz alguns anos, diagnosticada há três, porém devo carregar esse fardo comigo há, no mínimo, cinco. No início, a depressão era sobre estar em um estado de tristeza constante, como a maioria das pessoas acha que depressão é, mas eu tinha momentos de felicidade. Eles eram a minha calmaria antes da tempestade, mas existiam, e eu sinto muita falta deles. Conforme o tempo passou, a depressão se tornou menos e menos sobre estar triste e se tornou sobre nunca estar feliz. Eu podia não estar triste, apenas nunca estava feliz, uma roleta de sentimentos que nunca chegava na felicidade, e até mesmo dessa fase sinto falta. Sobre minha depressão hoje, eu diria que é sobre não sentir nada ou raramente sentir algo, nesses poucos sentimentos que só me visitam em ocasiões raras nunca está a felicidade, assim como a tristeza desapareceu. Desespero, raiva e frustração são os únicos nessa roleta quebrada e cinza. Na maior parte do tempo, eu não sinto nada.

Em um passado não muito distante, um ano e meio atrás, ainda existiam coisas capazes de me fazer feliz. Coisas pequenas e grandes, cotidianas ou distantes, faziam o meu dia. Um dia lindo para observar na ida para escola, macarrão na janta, uma conversa legal e inesperada e cinema, tudo isso me fazia feliz. O que sinto após sair do cinema é um sentimento especial, algo que não compreendo bem, mas quando saio da sala do cinema, me sinto inspirada e é como se eu pudesse fazer qualquer coisa. Não importa o filme que tenha acabado de ver, saio de lá com uma determinação súbita, vontade de escrever e mudar minha vida. Uma determinação que morria meia hora, ou menos, após pisar em casa, mas estava lá, hoje nem isso tenho. O fantasma desse sentimento me assombra quando saio do cinema e nós dois ficamos de luto pelo que era.

O que me faz feliz agora? Nada. Nem o mais bonito dos dias, o macarrão mais gostoso, a mais gostosa das conversas ou o melhor dos filmes, nada. Toda a minha criatividade, motivo pelo qual me acreditei superior à muitas pessoas, me levou a criar expectativas demais e perder o prazer nas coisas simples, esse é um jeito de ver as coisas.

Quando o professor saiu eu olhei para o papel e tentei escrever algo, parte por me sentir culpada por não ter feito a tarefa e também para ver se seria capaz de pensar em algo, e nada saiu. Deixei a sala irritada e um dos meus poucos sentimentos disponíveis, a raiva, decidiu me visitar e passar o dia.

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