Sobre ser adolescente, lésbica e dentro do armário

Alguns meses atrás eu fui em um psicólogo que uma cliente da minha mãe indicou, ela disse que as terapias homeopáticas usadas por ele eram muito eficientes e como minha mãe sempre foi contra me medicar nesse sentido — mesmo sendo muito fã de remédios para o mais bobo dos sintomas físicos, tendo uma caixa cheia deles em casa e arranjando qualquer desculpa para usá-los — ficou interessada e me levou lá. Eu não tenho nada contra homeopatia e como os remédios receitados por psiquiatras quase nunca me ajudaram, fui cheia de expectativas. No início da consulta achei o homem um pouco arrogante, mas relevei e fui tentando colaborar com o método dele, pensei que para arranjar uma solução talvez devesse ser menos exigente. Tudo ia dentro do normal até eu comentar sobre um dos meus maiores dilemas e sobre como isso afetava minha relação com os meus pais. Eu disse para ele com todas as palavras que era lésbica e a atitude dele logo mudou. Ele não me perguntou como eu achava que meus pais reagiriam ou como eu via, o que fez foi me contar que já havia curado muitas desse “estado de homossexualidade”, nesse exato termo. Fiquei pasma. Como eu, sem saber, fui parar num consultório de cura gay? Na minha cabeça isso só acontecia no interior ou com a participação de igrejas, como é noticiado pela mídia, não em um consultório de um psicólogo relativamente famoso, bem recomendado e no Rio de Janeiro. Quis sair da sala furiosa, mas minha mãe esperava lá fora e ela não faz ideia de que sou lésbica, e quis discutir com todas as minhas forças, mas simplesmente perguntei, na minha melhor imitação de um tom de voz calmo, como ele achava que podia fazer isso. Com um sorriso no rosto o homem disse várias bobagens, incluindo que “isso”, ser lésbica, era um mero desequilíbrio hormonal que ele podia consertar e que só existia uma paciente que ele não conseguiu curar, pois “tadinha dela” tinha real nojo de homens. Prosseguiu dizendo que eu não era realmente lésbica, só queria me revoltar e usou a minha relação difícil com meu pai, que eu tinha mencionado logo no início da consulta, para justificar isso. Tentei argumentar, mas vi que, com um homem arrogante e lesbofóbico como ele, não iria funcionar e não queria correr o risco da minha mãe ouvir pelas finas paredes do consultório. Terminei a consulta, que durou mais meia hora depois disso, desconfortável para dizer o mínimo e, como é óbvio, nunca mais voltei. Minha mãe, que foi com a cara do sujeito, ficou espantada com a minha recusa em retornar e até mesmo levantou a hipótese de que ele tinha abusado de mim, esse é sempre o primeiro palpite quando eu me distancio de um homem, e foi difícil convencer que eu simplesmente não gostei dele. Assunto encerrado, certo? Errado.

No prédio antigo da minha vó uma menina, recém formada do colégio e vindo de outro estado para estudar aqui, se mudou para o corredor dela e causou uma boa impressão na minha mãe. J, vinha de uma família católica, mãe super protetora como a minha, tinha uma voz doce e era muito educada, ou seja, o tipo que muitas mães querem como amigas para sua filha tímida e muitas vezes reclusa. J e eu nos demos bem, ficávamos um tempão conversando e vendo filmes. Ela me contou que já havia ficado com meninas e na época se dizia bi, embora hoje tenha se assumido como lésbica, o que me assustou na época que nos conhecemos, pois ainda estava lutando com todas as forças para reprimir o que eu sentia. Tudo ia bem, até a mãe dela contar para minha mãe sobre as suspeitas de que J fosse lésbica. Não é surpresa que depois disso ela já não era bem recebida na minha casa e com o tempo o contato cessou. Não foi até ano passado que voltamos a nos falar, eu fui atrás dela, pois já tinha tido contato com o feminismo radical e já tinha me aceitado como lésbica, pois queria muito ter contato com alguém como eu. Quando combinamos de nos encontrar minha mãe foi contra, com medo de que J fosse me influenciar e até mesmo falou com meu pai, que me deu o famoso discurso de “cuidado com as sapatão”, mas ultimamente foi permitido que eu fosse. Como sou horrível em manter contato, nos saímos e não nos falamos mais, por eu estar morrendo de vergonha de falar depois de tanto tempo. O importante não é esse, mas como minha mãe pensa que qualquer contato vai me influenciar a me tornar lésbica. O interessante? Eu já me assumi para ela em duas ocasiões diferentes.

Eu já acreditei ser bissexual, aliás, no fundo eu sabia que não era, mas queria ser. Queria ter uma chance de não ter que arcar com as consequências de não me atrair por homens, só uma chance. Eu achei que 0,01% de chance de me atrair por homens era suficiente e confessei para mãe, com todas as palavras, que eu era bi. Ela agiu mal na hora, não de maneira violenta, mas de maneira bem preconceituosa mas quando chegamos em casa, ignorou tudo e é como se nada tivesse acontecido. Em outra ocasião, quando eu já tinha percebido que não adiantava, eu era lésbica e não pudia fugir de quem eu era, tentei me assumir de novo, o segredo sendo demais para mim. Dessa vez com termos vagos, mas acredito que foram claros, ela só não viu porque não queria ver.

Mais recentemente, querendo dizer ontem, minha mãe descobriu que eu pretendia ir em uma festa lésbica. Eu dei desculpas vagas, menti sobre o tema da festa e ia com uma amiga que, até ontem, ela gostava, mas não menti sobre o mais importante: o local da festa. Minha mãe, como toda boa mãe super protetora, fez uma pequena pesquisa e boom, lá estava o evento estampado com um nome que deixa pouco para a imaginação. Eu corri para dizer que não íamos mais para tentar evitar que ela visse, mas era tarde demais. Na hora pareceu que ela ia ignorar de novo e eu torci para isso acontecesse, mas antes de dormir me disse a seguinte frase “você pensa que eu sou boba”. Tremi toda, com medo de que ela tivesse contado pro meu pai que não vai cair pela desculpa idiota que eu arrumei. A desculpa foi que “eu só estava curiosa”, eu não posso admitir a verdade e não vou jogar a culpa da minha amiga, e pode até colar com a minha mãe, mas com meu pai, jamais! Meu pai morre de pavor que eu seja lésbica e ele jamais engoliria isso. Hoje de manhã fui acordada com minha mãe com uma expressão facial assustadora, berrando e falando que mal dormiu a noite inteira pensando nisso. “Se quiser ficar curiosa fique curiosa sobre algo normal” ou “Você “é”, Letícia ou sua amiga é?” em um tom de voz que fez meu coração acelerar. Quis admitir, quis berrar com ela que não sou anormal e quis implorar para que isso ficasse longe do meu pai. Tive vontade de me assumir, não sendo mais capaz de manter o segredo, mas sei as consequências. Todas as minhas amigas vão virar culpadas, eu não vou mais poder sair e ela não vai me olhar mais com os mesmos olhos, o pior é a possibilidade de ela sentir necessidade de contar para o meu pai. Achando que é um tipo de dever e que ele não pode ficar sem saber, esse é o meu pior medo.

Minha mãe é muito controversa, percebendo os sinais ela diz que é ok se eu gostar de outras meninas e ainda iria me amar mesmo assim, mas quando aparece uma situação dessas reage de uma maneira extremamente preconceituosa e agressiva. Sempre contei com o amor dele quando me assumisse, será que estou errada? Já planejei tudo, a hora certa de contar, como contar, como garantir que meu pai nem sonhe com isso e já coloquei uma meta de estudar bem longe daqui. Ser livre desses olhares e ter minha vida, assumida e sem o medo de ser pega, mas não é simples assim. Qualquer lésbica vai te dizer que não é. O medo nunca acaba, ele está lá quando você ainda de mãos dadas na rua ou consegue um emprego, e muitas vezes, como é meu caso, a culpa. Eu me sinto tão culpada, suja, quase como uma vigarista. Minha pobre mãe, tão trabalhadora e amorosa, sendo enganada pela filha sapatão. Meu pai, que embora distante se esforça tanto para juntar uma poupança que me dê alguma segurança. Se ele soubesse como eu vejo esse dinheiro, como me sinto um lixo cada vez que ele menciona e como planejo pagar ele de volta. Minha mãe diz que a confiança em mim foi abalada ontem e retirou a permissão da minha amiga de dormir aqui durante o feriado. Não ligo para essas coisas, só preciso que isso fique longe do meu pai, estou extremamente preocupada. Não sei o que fazer e não sei quanto mais tempo posso aguentar esconder isso sem explodir, assim como não sei se sou forte o suficiente para aguentar o que vier assim que eu contar. Não é isso que eu quero para mim. Sei que a cura não funciona, mas desde ontem fico me perguntando se não deveria ter deixado aquele psicólogo arrogante testar, se isso não me daria, pelo menos, a chance de mentir para mim mesma pelo menos mais alguns anos, o tempo de eu sair daqui. Estou com medo e exausta não só por essa vez, mas por saber que não é a última.

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