A língua é viva e a gente também

Devaneios sobre a fantástica arbitrariedade do signo.

- Pois bem — explicou o Gato — , um cachorro rosna quando está com raiva e balança a cauda quando está contente, compreende? Enquanto eu rosno quando estou satisfeito e balanço a cauda quando estou com raiva, está entendendo? Portanto, eu sou louco.
- Não chamo a isso rosnar, mas ronronar.
- Chame como quiser — disse o Gato. (Lewis Carroll, em Alice no País das Maravilhas)

O que é não deixa de ser, independentemente de como o chamamos. Ferdinand de Saussure, linguista e filósofo suíço, dizia que a relação entre significado e significante só depende daquele que fala. No caso, de uma convenção social linguística. Mas o que une sentido e imagem acústica?

What’s in a name? That which we call a rose by any other name would smell as sweet. (Shakespeare, em Romeu e Julieta)

Às vezes, não me conformo com a sonoridade do nome de algumas coisas, em relação ao que elas representam. Não é justo, por exemplo, que pus seja o que é. Para mim, poderia ser o assobio de um vento fraco passando. Cipó facilmente poderia significar palhaço. Ô palavrinha engraçada!

Axila é nome de gente. Irmã da Tarcila. O tecido sarja me lembra indivíduos de má índole — não quero andar com essa sarja má intencionada. Porque não consigo pensar em corja sem lembrar das corujas sem o U. Coitadinhas, não merecem.

A gaivota é delicada, mas seu nome não é. Parece um bicho desengonçado. Histérico é feio, histórico é bonito, embora só uma letrinha os diferencie. E o que dizer da bílis? Lembra riqueza. Quando, na verdade, só é rica na sua função digestiva.

Sejamos justos; tem aquelas palavras que soam o que são. Girassol tem cara de amarelo e é feliz. Bagaço é um resto amassado e chupado. Cotovelo é estranho, assim como essa parte do corpo ossuda e com pele meio solta. Um sonoro lírio é lindo e cheira bem. O raio é rápido e o trovão é grave.

O zigue-zague, só de escrevê-lo, me deixa tonta. É uma catástrofe. Mas catástrofe mesmo é pronunciar catástrofe sem travar a língua. Não há palavra mais maluca do que esquizofrenia. Já reparou? “Portanto, eu sou louco”, e voltamos ao Gato da Alice.