Letícia
Letícia
Jul 23, 2017 · 2 min read

A escrita sempre esteve muito presente na minha vida. Sempre escrevi com facilidade, com fluidez. Era como se o mundo se estendesse num tapete vermelho à minha frente e eu o observasse, acima de qualquer nervosismo ou insegurança. Eu tinha o mundo aos meus pés, as palavras despejadas à minha frente, evidenciando um universo de possibilidades a serem descobertas. Eu sempre tive o meu mundo ali, sempre comigo, sempre fácil de compreender. Alguns não levavam tão a sério, outros se encantavam; mas ainda me lembro bem do dia em que fiz, através de um poema, uma pessoa chorar. Percebi, naquele momento, o poder que tinha sobre as pessoas. Percebi como as palavras podem fazer os sentimentos virem à tona, se revelarem sem que nem ao menos tenhamos consciência disso.

O tempo foi passando, as responsabilidades chegaram e a vida foi ficando cada vez mais dura e atribulada. Não podia “perder tempo” lendo meus livros ou escrevendo, precisava de foco, precisava estar entre os melhores se quisesse vencer. Será mesmo? Hoje me pergunto. O fato é que, embora nunca tenha abandonado por completo a leitura e a escrita, meu ritmo não só caiu- despencou. Me senti deixada para trás. Me senti meio vazia. Afinal, muito do que já havia conquistado na minha vida se devia à escrita. Afinal, não era justo deixar uma parte de mim se perder entre as árvores e os quebra-molas da Universidade.

Pena que demorei a entender isso. Demorei dois anos pra entender, de fato, que a escrita não era um hobby e sim uma necessidade da alma. Era a minha forma de colocar todos os meus pensamentos diante de mim, olhá-los, prová-los, senti-los da forma mais profunda, nua e despretensiosa possível. Percebi então que, se não me despisse das palavras da forma como sempre estive familiarizada, elas iriam sair de mim, num turbilhão, ao seu próprio modo. Porque as palavras, essas sim, tem ainda mais poder; mais poder do que eu ou do que qualquer escritor. As palavras jorram, moldam, vivem. O escritor, seu instrumento; apenas sente, sente tudo e mais um pouco até que esses sentimentos, traduzidos então em letras, já não podem mais caber dentro de si.