E nós pais? Como passamos por tudo isso?

Nas últimas seis semanas dividi com vocês a história do nosso pequeno Rafinha. Falei sobre nossas angústias antes e durante o tratamento e sobre as conquistas e vitórias do nosso menino que está em pleno desenvolvimento motor e cognitivo. Como comentei no post da semana passada, eu e o Maurício não planejamos como seriam as sequencias das postagem. Pensamos: vamos começar a contar a nossa história e ver onde vai dar.

Ocorre que chegamos num momento em que não temos muito mais o que falar sobre a doença que o Rafa enfrentou porque ela não existe mais. Também não temos muito o que compartilhar sobre o desenvolvimento do Rafa pois estamos na mesma que todos vocês que têm filhos entre 2 e 3 anos: vivendo aquela fase do terrible two, sendo o tempo todo testados no nosso limite pelas birras, manhas, etc.

Então pensamos que seria bom falar um pouco da gente — de mim e do Maurício — de como ficamos nesse tempo todo. Porque obviamente a história do Rafa nos impactou individualmente, como pais e como casal. Muita gente tem nos procurado para perguntar como passamos por tudo isso sem perder a alegria. Pessoas que nos encontravam em festinhas da escola ou em outros eventos sociais e não sabiam da história, se espantaram ao ler o nosso relato. “Vocês sempre estavam sorrindo, nunca imaginei que estavam passando por tudo isso!” Ouvimos essa frase mais de uma vez e começamos a nos questionar sobre ela. Por isso, o post de hoje não fala do Rafa diretamente. Mas fala sobre nós.

Já passamos por muita coisa nesses nove anos de casados. Mas, sem dúvida, o mais difícil foi lidar com a doença que o Rafa teve. Para mim não há nada pior do que filho doente ou problemas de saúde na família. E onde buscamos forças? Logo no primeiro post, eu comentei sobre o nosso apoio na fé. Realmente o que nos manteve em pé foi a crença firme de que não estávamos sozinhos nessa parada e que há um Deus que olha para nós e que como diz Santo Agostinho: “não para de agir”.

Nós não acreditamos em um Deus que manda doenças ou que deseja a morte das pessoas. Acreditamos num Deus que é puro amor. E como diz nosso querido Papa Francisco, seu nome é Misericórdia. E por que então existem doenças? Existe a morte? Bem, isso faz parte da vida. Estamos aqui e sujeitos a todas essas mazelas desta vida terrena. Aqui eu poderia falar que essas mazelas todas são fruto do nosso pecado, do momento lá atrás na história em que o homem se distanciou de Deus e tal, mas não vou entrar em questões teológicas. Quero aqui me concentrar na nossa relação com Deus.

Ao mesmo tempo que sei que não é vontade de Deus o meu sofrimento e muito menos de um bebê de seis meses ou de uma criança e que tudo isso faz parte da vida, tenho plena convicção que Deus me ajuda a carregar esses fardos. Eu posso afirmar com todas as letras que a força que eu senti durante todo o processo de enfrentamento da doença do Rafa foi algo sobrenatural. A vida toda tentei manter tudo debaixo do meu controle e qualquer situação, por menor que fosse, que fugisse desse controle eu me desesperava. Não foi à toa que fiz oito anos de terapia. Durante esse período minha frase de cabeceira era “controle é ilusão”. E quando eu estava aprendendo a viver nessa perspectiva, experimentei na pele essa máxima. Uma pessoa controladora como eu ter forças para encarar algo que saiu completamente fora do script é, sim, algo sobrenatural. A força não era minha. Vinha de algo muito, muito maior do que eu.

Esses dias me perguntaram se eu questionava a Deus sobre o porquê de eu estar passando por aquilo. E minha resposta foi: eu nunca perguntei por que e sim para que. O que eu devia e podia aprender com tudo aquilo? Quais os ensinamentos eu levaria para a vida? Qual o propósito de tudo isso? Hoje eu tenho algumas respostas. E outras eu nunca vou ter. E tudo bem. Afinal, seria muita pretensão da minha parte ter resposta para tudo. Toda vez que me vejo diante de questões que não entendo, lembro de Santo Agostinho tentando decifrar o mistério da Santíssima Trindade.

Certo dia, ele estava numa praia se questionando sobre a existência de Deus e como podemos afirmar que são três pessoas e um único Deus (Pai, Filho e Espírito Santo). Ao adormecer ali na praia, ele começou a sonhar com uma criança que abria um buraco na areia e tentava colocar a água do mar dentro desse buraco. Santo Agostinho, então, foi conversar com ela e perguntou: o que você está tentando fazer? E a criança respondeu: estou tentando colocar toda a água do mar dentro desse buraco. Então, Santo Agostinho disse: mas você não vê que isso é impossível? E a criança respondeu: é mais fácil colocar toda a água do oceano neste pequeno buraco na areia do que a inteligência humana compreender os mistérios de Deus!

Para mim essas questões de doença, principalmente de crianças, fazem parte desse mistério… Para que uma criança fica doente? Essa pergunta sempre me acompanhou… e claro que eu sempre achei isso injusto… para que um ser tão inocente fica doente e sofre? E eu não estou sozinha nessa dúvida. Em uma audiência com as crianças, um menino perguntou ao Papa Francisco: se o senhor tivesse que perguntar a Deus sobre alguma coisa, o que você perguntaria? E a resposta do Papa foi: por que as crianças ficam doentes?

Já me questionei, por exemplo, do porquê o Rafa saiu dessa ileso e tantas outras crianças não. Não acho que minha fé é maior do que a de outros pais. Seria muita, muita arrogância de minha parte achar que foi a minha fé ou a do Maurício que livrou o Rafa das sequelas dessa doença. O que eu acredito é que recebemos a graça tremenda de estar com os ouvidos e olhos atentos e escutar o que nosso anjo da guarda e, claro, Deus falava ao nosso coração. Recebemos a graça do Rafa não ter lesão cerebral mesmo convulsionando por três meses por pura misericórdia de Deus. Acredito com toda força do meu coração que Deus esteve e está com a gente o tempo todo. Acredito, sim, que nossa oração move o coração de Deus, mas a vontade Dele é soberana… e os sofrimentos todos dessa vida nos preparam, nos ensinam, nos encaminham para a verdadeira vida, para a nossa verdadeira casa que é junto de Deus.

Óbvio que em muitos momentos as coisas se misturam na minha cabeça, óbvio que existem momentos de deserto e de perguntar: meu Deus onde você está? Mas eu posso dizer que o que nos manteve em pé individualmente e como casal foi a oração. Todos os dias, antes de dormir, temos um encontro com Deus através da oração. Tem dia que essa oração é mais potente, outros nem tanto. Mas, sem dúvida, esse momento de encontro com Deus na oração e semanalmente na eucaristia, na missa , nos deu e nos dá força para a caminhada.

E sabemos que a maior herança que podemos deixar para os nossos filhos é a fé e o conhecimento de Deus (daquilo que Ele se deixa revelar a nós). O que vai fazer com que o Rafa e o Miguel sejam felizes e passem por essa vida fazendo a diferença é a certeza do céu, de uma vida além desta vida, a experiência com esse Deus lindo que se deixa encontrar a todo instante e que é a fonte de toda a força e graça que nos faz passar pelas adversidades da vida com dignidade e experimentando o sobrenatural.

No vídeo, Rafa cantando comigo pedindo que Deus derrame sobre nós o seu Espírito. São esses momentos simples que me fazem ser uma pessoa extremamente grata a Deus por seu Amor e sua presença em minha vida.

https://youtu.be/CMSna8BL1Gs

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