DONOS DO MUNDO

Através do vidro sujo que envolvia a conveniência do posto de gasolina, vislumbrava o frentista adulterando o combustível. A mistura fora ordem do patrão, que herdou a empresa e o lema de seu pai: “O mundo é dos espertos”.
Retornando ao balcão, sentia o aroma de café entrelaçado ao perfume da garçonete. Diante de seu nariz, a moçoila enchia a garrafa térmica com generosas doses de água fervente, economizando no pó. O observador sacudiu sua xícara esboçando uma sorridela, como se o vapor do café desenhasse: “O mundo é dos espertos”.
A duas banquetas de distância, vestindo terno de segunda, um jovem tem o auxílio da gravata para enxugar o suor que escorre frio pela testa. Os dedos trêmulos correm pelo teclado do notebook, transformando seu currículo numa obra de arte, mas ele sequer era artista. E nem precisava, porque o mundo é dos espertos.
Cercado pelo show corrupto, transbordava sentimentos no guardanapo. Mantinha o lápis preso entre os dedos, como uma varinha mágica, a qual encantaria o coração da amada. Não media esforços para beijá-la através dos versos. Exagerava no sentir, sim! Se era esperto ser louco de amores? Não sabia, nunca pertenceu ao mundo mesmo. Seu amor não cabia no peito, quem dera num planetinha.