RESSACA

Cega pelo feixe de luz que invadia seu esconderijo — um quartinho de pensão na encosta da rodovia — coça os olhos, deixando nos dedos o que restou da noite. Flutua para o final do corredor, guiada pela ressaca, empurra a porta de alumínio sem resquícios de maçanetas e fechaduras, se familiarizou com a falta de trancas, lembrava seu coração. Hoje, ela não veste os chinelos ganhos da dona Lúzia no natal, a antiga vizinha da frente enfrentou o Parkinson para bordá-los, foi seu último ponto cruz. Gira o registro enferrujado até ouvir a água viajando pelos canos, dessa vez não espera o chuveiro aquecer seu banho, aquela manhã não nasceu para luxos. A roupa fora arrancada madrugada passada, já a alma foi despida quando a primeira gota escorregou pelas vértebras. Se chorasse, o salgado das lágrimas não se perderia no ralo, a solução era cultivar um oceano dentro de si e controlar as marés.