De onde vem toda essa culpa?

Esse é um texto sobre estupro e abuso e como eles moldam a realidade na qual você vive.

Ao longo do tempo conheci diversas mulheres que passaram por uma situação dessa natureza. E sei que muitas mais compartilham dessas experiências horríveis. Hoje eu estou as fazendo falar nesse texto, se libertarem, se sentirem aconchegadas. As partes desse texto estão preenchidas com as histórias que ouvi de vítimas variadas, com suas palavras. Fui o mais sincera que pude e espero que percebam isso enquanto leem as linhas desse texto biográfico.

O conteúdo é forte, mas verdadeiro. E ao contrário do que imaginam, acontece frequentemente. Nas ruas, dentro de casa, no relacionamento, na família. E sempre tenhamos conosco a certeza de que a culpa nunca é da vítima.

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Eu tinha cinco anos e vivia em uma casinha simples. Apenas uma menininha feliz com um sorriso grandioso e brilhante no rosto correndo pelos corredores de um lar improvisado, mas gracioso. Antes de tudo isso, eu ainda era um ser humano. Hoje em dia sou uma mancha na roupa da existência, quase saindo de tanto passar sabão.

O dia em que começou eu não tinha noção do que estavam fazendo. Por um bom tempo depois acreditei que era apenas uma brincadeira e eu fazia parte dela. Ganhava doces e ameaças pra ficar quietinha e aproveitar. Ás vezes que eu não queria ainda me faziam brincar e eu sempre achei normal primos e primas fazerem brincadeiras como essa, como me disseram. Foram dois anos assim. Quando cresci comecei a ouvir sobre sexo e como as meninas que dão são vadias por fazerem o que fazem. Aprendi que aquilo nada mais era do que eu deixando-os me foder. Senti-me horrível por ser tão vagabunda. Ficava inventando desculpas para mim mesma a fim de diminuir o desgosto pela minha pessoa. E eu passava o dia assim, confinada com meus pensamentos. A culpa e a vergonha eram tão grandes que cobriram toda a minha vontade de falar para alguém sobre o assunto.

Passava o dia ouvindo minha mãe dizer que colocar batom e roupas curtas era coisa de puta. Escutava as histórias do meu irmão sobre como ele tinha conseguido uma transa fácil com uma vadia que ele fingia gostar e como aquela vaca era dada, rodada e patética. Observava meu pai dizer que as mulheres deveriam fazer tudo o que seus maridos a mandassem fazer enquanto passava a mão nas minhas coxas. Me fingia de desapercebida quando um menino encostava na minha bunda nas festas da escola.

E depois de tudo isso, ainda comecei a ter medo dos meninos que encontrava por aí, no ônibus, na escola ou os primos que eu via nas festas de família. Afastava-me de todos. Desenvolvi um afeto enorme pelas meninas, pois tinha certeza que nunca me machucariam. Procurei amor em várias delas. Apaixonei-me por várias delas. Namorei escondido com várias delas. Me vi em várias delas. Gostava do jeito como seus cabelos caiam no rosto depois de solto, o jeito que me acariciavam e como se moviam tão delicadamente sobre mim. E por isso também fui machucada por várias delas.

Ainda me sentia culpada pelo que tinha acontecido. Afinal, eu me meti nessa merda. Eu só sou triste assim porque deixei eles me comerem por dois anos, sou uma pessoa terrível, não sou? Ainda tenho lembranças curtas, algumas longas e cicatrizes para curar. E mesmo depois disso tudo, comecei a gostar de um cara.

Ele era legal, gentil, atencioso, o tipo de cara que conversa com você antes de te levar para a cama. Não demorou muito para eu gostar dele. Começamos a namorar e tudo parecia dar certo. Éramos o casal feliz que gostava de ficar em casa agarradinhos vendo filmes na TV. Eu estava acreditando tão forte nisso e o amava tanto que nem ligava para os tapas que me dava quando chegava tarde em casa. Eu era mesmo uma vagabunda por chegar tão tarde, eu não posso deixar meu homem em casa sem alguém para transar quando ele está entediado. Também aceitei que uma mulher comprometida não pode fazer faculdade ou sair com os amigos porque tinha que cuidar da casa para que quando ele voltasse do bar pudesse me comer e ficar menos estressado.

E eu fazia tudo isso, se não ele me acharia entediante e me dispensaria. E quem iria ficar com uma mulher como eu? Sou chata e gorda demais para alguém se interessar.

Tem uma hora que você se acostuma. Você faz tudo certo para não ser espancada de novo. Na verdade, nem sente mais dor quando ele decide te comer de madrugada ou quando chega bêbado. Você não sente nada. Nada demais. É só rotina. Não sai, não conversa, só faz o que precisa ser feito. Você acredita na sua felicidade fingida, na realidade que construíram ao seu redor , que aquela é a única pessoa que vai te aceitar no mundo.

Quando comecei a ficar com medo, fui procurar ajuda. Apesar de pouco, eu tinha fé em Deus. Fui até um pastor para falar dessas experiências. Pensei muito sobre isso, pois não achava que precisava de ajuda. Tanta gente passando por coisa pior, eu não devia ter pena de mim mesma. Mas foi mais forte que eu, e fui. Lá não encontrei o que buscava. Disseram-me que estava exagerando, que talvez eu não devesse ser tão negligente, que ele era meu marido e eu deveria acatar suas decisões como unânimes. Não tinha escapatória, era isso.

Você só se torna capaz de perceber a mentira que sua vida é quando está no hospital por tentativa de estrangulamento. Mas você nunca achou que chegaria tão longe. Ele dizia que nunca ia se repetir. Que ele nunca mais me ameaçaria com a sua faca, que me afogaria no lago ou que iria mesmo compartilhar fotos íntimas.

Mas era mentira. Tudo isso foi minha culpa, como o deixei fazer isso comigo? Eu sou uma vadia louca! Agora todos me olham pensando como deixei alguém fazer isso comigo. Eu o amava tanto, ou será que não? Talvez o medo me forçasse a isso.

No final das contas, tudo o que sempre senti foi culpa. E de onde ela vem, afinal?

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