Carta de amor

Uma de nossas mil selfies de elevador ❤

Uma das coisas mais revolucionárias que me aconteceram quando me tornei feminista foi o amor que passei a sentir por outras mulheres. Sempre me ensinaram que mulheres eram traiçoeiras e competitivas, que puxavam o tapete por inveja e ciúme, que não eram confiáveis. Resguardava meu amor pelas mulheres para minha mãe, minha irmã, minha vó e minhas tias. As outras, as mulheres lá fora, eram um obstáculo a ser ultrapassado, ou no máximo pessoas a serem tratadas com distanciamento e cordialidade e nunca confiança. Confiáveis mesmo eram os caras, que falavam as coisas na cara e me tratavam como um brother quando eu não era fresca. Mas eu podia guardar minhas questões de mulher e me sentir privilegiada de sentar na mesa dos adultos que é ser uma mulher aceita na rodinha de homens. Mas a gente cresce e percebe que para ser gente não precisa ser um deles.

Uma das primeiras mulheres que se fez amada por mim foi a Clara. Ela é. Sua inteligência, presença e humor são encantadores. Ela se tornou meu girl crush, a mulher que me ouvia e a quem eu ouvia, com quem eu podia não só falar do que doía mas ter troca intelectual. Falar do mundo. Dos filósofos, das guerras, de tecnologia, de música, de literatura, de dramaturgia. De gravidez, criação de filhos. A gente se enfiava no armário uma da outra trocando roupas enquanto debatíamos o processo de escrita e planejávamos a dominação mundial. A filha da Clara se tornou minha sobrinha. A minha filha acha que a Clara é uma sereia. A Clara segurou minha mão quando eu me separei. Comemorou quando eu finalmente me apaixonei de novo e xingou muito o cara que partiu meu coração. Ela emprestou sua cama para que eu dormisse. Eu lavei sua louça e cozinhei pra ela. Com quantas pessoas do mundo se pode debater a fundo um livro do Stendhal e um clipe da Rihanna? Pois ela é uma dessas pessoas.

Curioso como as pessoas correm para julgar uma pessoa pública sem conhecê-la. A Clara ama os animais e as plantas, evita remédios e curte paradinhas naturebs, comidinhas veganas. Uma vez rimos muito de um hater que a chamava de mariposa noturna quando na verdade ela é uma amante do sol — quando ela me visita no Rio é o sol que buscamos. Ela é coerente com os seus sentimentos como poucas pessoas o são. Doce, doce, doce. Quem está perto sabe. E dura mesmo só com quem não merece, certa tá ela que não aguenta os hipócritas e os mornos. Aprendo com ela a ser coerente comigo mesma.

Percebi depois desse episódio horrível que mesmo ela sendo meu amor, eu nunca tinha escrito para ela uma carta de amor. Como assim? Eu já escrevi tantos textos lindos para homens que não valiam a pena. Escrevi alguns poucos e bons para homens que mereciam. E a minha garota merece saber o quanto a sua presença é importante na minha vida. O quanto sua beleza me inspira, seu talento me comove, sua força me ajuda a seguir.

Ser mulher é uma travessia impossível de se fazer na solidão e estar de mãos dadas com você no mundo me mostra que é possível existir, resistir e ser merecedora de nada menos todo amor do mundo. Todo respeito. Toda reverência. E nada menos que isso.

Nós aqui do meu lado sabemos que o mundo pode ser lugar horrível mas também pode ser o lugar onde temos encontros onde tudo parece fazer sentido e valer a pena. Aos que odeiam e fazem do ódio o seu modo de estar no mundo, eu lamento por vocês. Nunca vão poder experimentar algo assim. Nem posso imaginar como é estar nessa escuridão.

Môzi: mi casa, su casa. Mi corazón, su corazón. Su dolor, mi dolor.

Sigamos juntas, que nada pode nos parar.

Com amor,

Rê.

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