Feminismo e Amor

É um dos temas mais espinhosos do feminismo: falar sobre relacionamentos afetivos, amorosos, sexuais na heterossexualidade. Como regular politicamente o desejo — ou pior, a falta dele? Bom, a resposta é não, não dá pra regular o desejo politicamente, o conceito de amor romântico e suas manifestações são uma das estratégias mais poderosas já construídas para a manutenção do status quo.

O próprio conceito de amor é algo fluido e não universal. Muda com o tempo, a história, a localização de uma país num mapa. Como comparar o amor cortês medieval com a ideia de amor amplo e universalizante da conteporaniedade? O que podemos dizer com certeza é que o amor, em cada cultura, se manifesta materialmente como uma série de regras de conduta, onde pisar fora da linha te coloca em maus lençóis sociais. Nada tem a ver com o que se sente, mas sim como agir socialmente depois que se estabelece um laço amoroso.

Parece racional e nada emocional. E é mesmo. A ideia de amor como força incontrolável que deve ser respeitada por si só é relativamente recente. O casamento como ápice do enlace amoroso mais recente ainda — essa estrutura serve muito pouco ao sentimento até hoje, mas já serviu muito para alianças entre aristocracias e produção de herdeiros. E esses acordos, geralmente são muito desvantajosos para mulheres, anulando suas identidades, interesses, circulação no espaço público para que se execute de forma integral o serviço doméstico não remunerado e desvalorizado. As outras alternativas poderiam parecer ainda piores: se tornar amante, a prostituta institucional, a quem não se deve respeito, que fornece filhos bastardos, com relacionamentos à sombra, sem nenhuma segurança financeira ou emocional.

Mas é claro que se todas as opões parecem tão desvantajosas, por que mulheres continuam, seguidamente, na contemporaniedade, acreditando na ideia de amor como algo que as signifique, através do encontro de um par?

Não é uma pergunta fácil de ser respondida, mas são anos e anos de uma cultura que massivamente nos apresenta modelos de felicidade onde a mulher só pode ser realizada encontrando alguém (um homem, claro. vê se as mulheres lésbicas em relacionamentos saudáveis são vistas como “completas’ pela sociedade? Elas não encontraram um homem que desse jeito nelas!) e cumprindo um destino de mulher, servindo ao homem, que a elevou ao status de escolhida. É fácil vender uma ideia difusa de amor, um sentimento tão incrível e sublime que através dele se encontra o verdadeiro propósito da vida. Que por ele vale fazer qualquer sacrifício: abrir mão de um sobrenome, de uma aparência, de uma carreira, de uma cidade, de amigos, uma identidade de um hábito. Para o senso comum, para ser uma mulher digna de amor deve-se, impreterivelmente “perder” algo.

Não é surpresa então, que nesse contexto, o século XX e o início do século XXI tenham sido pródigos em ressignificar e colocar em prática diversos arranjos e rearranjos amorosos e sexuais, como forma de se opor a um modelo pouco igualitário e que tem como pilar o cerceamento das liberdades individuais das pessoas envolvidas.

Infelizmente, muitos desses rearranjos não estão comprometidos em mexer nas estruturas de opressão, no machismo, no capitalismo, no patriarcado, então acaba que novas maneiras de se relacionar se tornam supérfluas, servindo aos mesmos patrões de sempre, mantendo os homens em seu lugar de privilégio sem questionamentos — é como se propor fazer uma grande reforma em uma casa condenada, mas ao invés de demolir as fundações para construir algo realmente novo, estivéssemos pensando nos rejuntes do banheiro e pendurar uns quadros nas paredes decrépitas.

E é aí que entra o feminismo.

O feminismo não serve para regular como as pessoas transam, começam, mantém ou terminam relacionamentos. O coração quer o que o coração quer, afinal. Mas serve para analisarmos como os relacionamentos amorosos estão servindo ao bem estar das mulheres ou a manutenção delas em um lugar de subalteridade. Sempre lembrando que estou falando de uma perspectiva de classe média, branca, sul americana, contemporânea. Não posso me manifestar em outro lugar.

Relações livres, Casamentos abertos, Não-monogamia. Todas essas práticas procuram reestabelecer a autonomia do indivíduo e de seus desejos dentro de um relacionamento amoroso. Mas voltemos para metáfora da casa. Desculpem soar cafona ou clichê, mas casa me parece uma estrutura adequada e tão ambígua quando o conceito de amor. Suas paredes podem ser acolhimento ou prisão, segurança ou opressão. Então vamos imaginar essa casa, construída sobre uma sólida fundação. Essa fundação, fincada na terra, é o patriarcado. Antiga, dura, parece indestrutível. As paredes são os modos como nos relacionamos.

A gente pode pintar a parede. A gente pode derrubar algumas até. Mas a casa permanece de pé pois a fundação está lá firme e forte.

“Meu marido topa menage, mas só com outra mulher / no nosso namoro eu posso ficar com outras pessoas desde que seja uma mulher”
“Cara, depois de juras de amor ele desapareceu e apareceu do nada semanas depois. Tive medo de confrontar e ele terminar tudo”
“Topamos de nos encontrar no baixo gávea, cheguei lá ele estava beijando outra garota, reclamei e ele disse que eu estava sendo careta, que ninguém é de ninguém”
“Depois que abrimos o relacionamento eu nunca consegui me relacionar com outras pessoas — ele vai para o trabalho, frequenta happy hours, e eu fico em casa com o nosso filho, sem vida social, sem oportunidade de conhecer alguém”
“Quando finalmente eu fiquei com outro cara meu namorado teve um surto e quis fechar o relacionamento de novo, disse que não aguentava me imaginar com outra pessoa. Mas ele já tinha ficado com mulheres do meu círculo próximo e eu nunca pude falar nada”

Abrir um relacionamento ou praticar o desapego e o sexo casual de nada servem à igualdade de gênero se as pessoas envolvidas continuam acreditando que sexo é moeda de troca entre homens e mulheres, onde o homem deve conquistar, pegar, e a mulher conceder, aceitar. Sexo deveria ser um jogo entre adultos desejantes; De nada adianta pregar a fluidez, se a fluidez serve para um homem continuar não precisando ser honesto com sua parceira (casual ou não) e a mulher calando, com medo de parecer maluca, histérica. De nada adianta pregar leveza, se essa leveza se paga com um peso gigante no coração, pisando em ovos para não desagradar, com medo de perder, caso não se aceite os termos do rapaz em questão.

A mim parece claro que o grande vilão dessa história ainda é a estrutura dessa casa, que faz mulheres acreditarem que precisam de homens para se sentirem completas, e faz homens acreditarem que todas as mulheres vão cair de amores depois de uma foda meia boca e algumas palavras melosas pós cama; Essas estruturas fazem com que as mesmas histórias se repitam ad infinitum, num looping de dor e desencontro.

Infelizmente, apesar de acreditar que alguns homens podem estabelecer um diálogo franco a respeito da igualdade de gêneros dentro de um relacionamento afetivo, eles ainda são minoria. Homens, como coletividade social, não estão dispostos a abrir mão dos privilégios que lhes são concedidos socialmente, olhando suas parceiras casuais como seres humanos que merecem respeito. Para que abandonar essa casa deliciosa, espaçosa e bem localizada?

Como diria a escritora francesa Marguerite Duras, nada é mais público que o estritamente pessoal; Marguerite teve um caso, à época escandaloso, com um homem mais velho e oriental, quando mal tinha saído da adolescência, e isso se tornou seu livro mais famoso, o Amante, que depois se tornou o filme Hiroshima mon amour. Ela escreveu essa frase pois sabia que é nas relações íntimas que as macro estruturas se manifestam de forma mais desavergonhada, no conforto do lar, no enlace amoroso, na vertigem. Onde não precisamos de verniz social e onde a casca de civilidade geralmente sai junto com as roupas. Um exemplo claro disso está no livro Teoria King Kong, da Virginie Despentes que, em um trecho, fala sobre a construção massiva da fantasia sexual de estupro; nem quando estamos relaxados, na intimidade, a estrutura deixa de nos influenciar e ditar nosso comportamento, pensamentos, desejos. Mas somos pessoas, somos dotadas de intelecto, gênio, alma, coração. A gente pode, ao invés de se torturar com essa influência, usar dela para construir nossa própria realidade.

A mim, a única atitude possível de ser tomada é olhar com muita honestidade para as fundações dessa casa, não importa que estilo de vida você tenha adotado. Dinamitar a ideia de amor (pelos homens) como salvador da existência de mulheres, o único significante possível para uma vida com propósito. Estar completa é entender que um relacionamento amoroso pode ou não fazer parte da vida de uma mulher, que afetos vem e vão, e que pagar com a própria sanidade o preço de fazer parte de um par definitivamente não é um bom negócio. Daí então poderemos ter relações afetivas mais honestas, onde os homens medíocres não acreditem que são um prêmio a ser cobiçado e que a horizontalidade da cama também se manifeste nos diálogos, expectativas e limites de cada um. O resto, amigos, é perfumaria.