Gravidade

É, moço. A chuva não passa. A previsão é de dez dias de água sem trégua no Rio de Janeiro. Pego ônibus, fumo embaixo de marquises, me separo do mundo usando fones de ouvido vermelhos, que vez ou outra tocam uma música que lembra você.

A língua é um mapa de nossas falhas, o texto, uma bússola pro engano. Coloco no repeat:

“Come with me

Come with me

We’ll travel to infinity

Come wih me

Come with me

We’ll travel to infinity

I’ll always be there

Oh! Oh!

My future love

I’ll always be there

For you

My future love”

Sinto uma vergonha profunda de não estar fazendo referência a aquela poeta colombiana que todos me recomendaram, que fala de amor de uma maneira tão pura e simples. Meu amor nunca foi puro e simples, foi besta e desregrado, não dormia bem, bebia no gargalo e acordava fumando. Então eu canto eletropop do início dos anos 2000, eu finjo que existe algo de interessante nisso, eu e minhas botas douradas enfrentando as poças brilhantes da Marquês de São Vicente, invejando as estudantes da PUC que ainda acreditam em “para sempre”.

Dia desses mesmo, dancei, dancei, dancei até meus pés sucumbirem, até o bar fechar, até o DJ desistir e me parar empurrando meu corpo contra uma parede preta e áspera. Dia desses mesmo falei baixinho na orelha de outro homem o endereço para que ele me seguisse. Noite dessas mesmo eu desisti de fingir que um dia você foi uma possibilidade real. Os livros que eu queria te mostrar, o vinho que te faria embebedar, a cama para você deitar, a porta para você entrar, estão todos aqui, imóveis, congelados no tempo. Deixei que eles te desejassem para eu não precisar.

Um dia ainda pisarei nos destroços de São Paulo sem pensar nos nossos escombros, moço. Talvez eu ainda te agradeça. Talvez eu consiga passar pela praça sem desmontar, aqui, acolá.

A cidade me espera. Você não.