Homem, acalme-se

Não é para tanto. Não precisa ficar histérico e se descabelar. Talvez vocês estejam passando por um período hormonal. Alguma coisa com a testosterona, enfim. É de conhecimento geral que esse descontrole só pode ser biológico, afinal o que explicaria a alta taxa de violência praticada por homens? Certamente não é cultural, não é ensinado. Só um lance fi-sio-ló-gi-co explicaria esse comportamento.

Acalme-se homem. Não precisa chegar nesse ponto lamentável de compartilhar um texto da Tati Bernardi por medo de que roubem sua voz. Texto esse que compara atuação política de mulheres com estupro. Ai, que deselegância. Mas eu entendo o desespero. Entendo mesmo. Deixa eu te contar uma coisa: liberdade de expressão serve muito bem a quem possui os meios para se expressar. Para quem tem condições materiais e objetivas. Não tema pela sua liberdade de expressão. Você pode continuar expressando toda sua liberdade — liberdade essa que mulheres, pretos e viados nunca tiveram — que ninguém quer te tirar isso. Mas não tente nos dizer como nós devemos nos comportar para sermos ouvidas. Isso não. Isso não é maneiro. Isso não é legal.

Fica calminho, por favor, fala baixo. Não precisa gritar e perder o controle ao ver que o mundo tá mudando. Não precisa. É um processo. Ele vai demorar. Infelizmente não vai ser por força de um decreto à la Giocona Belli que vocês vão ser expulsos da tribuna do espaço público para ficarem numa vida silenciada e doméstica só observando essas loucas tomando as ruas da Albânia virtual empunhando Kalashnikovs. Calma. É que existem outras vozes. E quem não tá acostumado a ser contrariado pode ficar mesmo um pouco confuso. Pode ficar um pouco perdido. Pode achar que merece ganhar no grito. Ou ser acolhido. Como uma criança de três anos.

Homem, acalme-se. Não vai ser de um dia para o outro. Nós deveríamos estar muito mais nervosas. Afinal, né? Tem opressão milenar, tem opressão pra chuchu, tem opressão a dar com o pau em cima da gente. Esse incomodo, esse medo de falar e ser mal compreendido, essa sensação esquisita de talvez não ser o seu momento de dizer, essa coisa difusa que é: talvez eu deva ficar quieto e ouvir e aprender, talvez eu receba uma reação um pouco assertiva se eu abrir a minha boca, não é inédita para nenhuma mulher que pisou na terra, pisa ou pisará no próximo século.

Talvez esse seja o grande aprendizado, homem. Talvez, homem querido do meu convívio, que está comigo no trabalho, nas mesas de bar, na minha cama, no natal da minha família — seja sentir assim, no coração, na carne, na pele o que é estar em um lugar onde sua opinião não é assim lá tão relevante.

Mas como eu disse anteriormente, pode ficar calmo. Essa sensação é passageira, e quando a hashtag for afogada pelo feed, quando o assunto for outro na timeline, quando vocês deslogarem das suas redes sociais, quando vocês voltarem para as suas vidas offline, para suas famílias, amigos e trabalhos, bem pouco vai ter mudado, sabe? Sua voz provavelmente vai continuar soberana e central nos meios onde você circula. Não precisa perder as estribeiras. Não agora.

Pode guardar seu destempero. Até aparecer outra moça que levante a voz e diga que desse jeito, desse jeito, amigo, não vai rolar.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated renata correa’s story.