The padrão never ends

“É que narciso acha feio o que não é espelho.

E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho.

Nada do que não era antes quando não somos mutantes.”

Me peguei grifando mentalmente esse trecho quando ouvia Caetano e Gil no metrô, na volta pra casa. Eu não chamaria essa música de chiclete, mas grudou na minha cabeça. De repente já estava pensando em que raios Caetano quis dizer e em quanto tudo isso me soava atual.

Uma semana antes dessa grande epifania musical, tive duas conversas que, apesar de parecerem completamente diferentes, me fizeram pensar mais ou menos na mesma coisa: the padrão never ends. Se você leu essa frase e aquela placa de neon com os dizeres “o mundo tá chato” piscou na sua cabeça, peço que tente entender meu ponto de vista antes de sair comentando “geração mimimi”. Talvez aqui tenha também uma crítica para as pessoas que fazem você achar exatamente isso.

Sobre a primeira conversa: trabalhar com publicidade faz a gente ficar ligado ao comportamento das pessoas como um surfista na praia, estudando o movimento do mar. Mas de uns tempos pra cá, a gente não pode ver uma onda crescendo que já se atira na água e começa a remar com toda a força. Nem sempre dá tempo de chegar nela pra uma manobra digna de campeonato. Na verdade, 99% das vezes torcemos pra não morrer na praia, com o perdão do trocadilho, e nos contentamos com um drop que deixa a plateia feliz.

A geração millennial fez despertar nas marcas (arrisco dizer que na marra) o fator responsabilidade social e o posicionamento frente às causas e bandeiras. Até aí, ótimo. Mas o problema é que muitas delas ainda nem sabiam nadar e já queriam surfar a onda mais alta. Isso quer dizer que muita gente quis sair noticiando seus feitos antes de realmente estar preparado pra justificá-los — até uma grande marca de refrigerantes criou um comitê de diversidade personificado por homens brancos. Pareceu tão fácil juntar “um time que ainda não inclui mulheres ou heterossexuais” quanto finalmente entrar no mar sem bóia de braço.

Tá, mas e o padrão que never ends? Explico. Quando as marcas levantam essas bandeiras sem estudar o terreno onde vão fincá-las, acabam escolhendo rostos e vozes só pelo agrado ao senso comum. Não que eu não ache a Karol Conka uma negra empoderadíssima e símbolo do feminismo atual, dona de cachos e lutas. Mas é que ela já é a voz da Avon, da NET, do Vôlei Nestlé, da Mercedes, entre tantas outras que dizem “olha, temos Karol conká”. Quantas Karois Conká também estão aí fazendo um trabalho de gente grande por suas causas e não têm a mesma exposição? Ou Pugliesis na área fitness? Ou Camilas Coelhos nas maquiagens? Ou Emicidas valorizando a quebrada? A gente está criando padrões pra combater padrões. E isso não me parece ends tão cedo.

Minha segunda conversa foi sobre mim e sobre meu próprio medo de quebrar padrões. Tiro o lado publicitária e deixo na sala a Letícia de 24 anos que às vezes se sente insegura com o comentário de outras mulheres sobre a raiz por fazer, a unha descascada, as olheiras de quem não dormiu tão bem. “Será que essa indireta é sobre mim?”, “se eu postar essa foto que me achei bonita vão reclamar que é selfie de novo?”, “se eu fizer check-in aqui vão me chamar de fancy?”.

Todo publicitário diz que não salva vidas, mas que um bom job pode mudar o mundo. Então, meu job atual é ser o mutante da música do Caetano. É adaptar minha própria cabeça para não chegar na voadora no que é mesmo velho, nem achar feio o que não é espelho. É fazer nada do que não era antes, mas no contexto do agora. É não temer o atrito e sair da bolha.