NÃO LEIA UMA METÁFORA AQUI
Era uma vez um barco que não estava nem muito perto, nem muito longe de lugar nenhum. Sua tripulação não sabia exatamente para onde estava indo, mas isso não era um problema. Ela quase não tinha tempo pra pensar nisso. Estavam todos sempre muito ocupados em limpar o convés, empilhar a carga e descobrir qual constelação indicava o norte, mesmo não sabendo se seguiam para o norte. Um dia, não se sabe bem como, chegou ao ouvido do capitão a seguinte notícia: este barco vai afundar.
O capitão se apavorou. Logo seu reluzente e grandioso barco pararia no fundo do oceano? Ele saiu de sua cabine e foi olhar a tripulação, pra ver quão reversível seria a situação. Apesar de muito ocupados em suas tarefas, todos o acompanhavam com o olhar para tentar desvendar quais seriam seus próximos passos. Uma falsa contensão de nervos ditava o ritmo dessas passadas. “Quanta pressão! Precisamos resolver o problema o quanto antes. Antes que os motins comecem e os poucos botes se tornem mercadoria de barganha”. Apesar do desespero, o capitão não admitiria a derrota perante seus homens. Não mostraria fraqueza assumindo que o boato teve impacto. Apenas precisava assegurar que o barco estava seguro e, pra isso, tratou de bolar um plano.
Sua primeira ação foi reunir as patentes mais altas em sua cabine. Quando todos estavam na sala, ele disse: “sei que um boato maldoso circula pelo nosso barco. Uma mentira que tenta ferir a minha imagem e liderança. Apesar de muitos questionarem meus métodos de navegação, digo que tenho tudo sob controle. Estamos no curso certo, apenas abaixo da velocidade ideal porque alguns tripulantes não estão executando suas funções perfeitamente. Não quero dizer quem são, mas digo que são os grandes responsáveis por ainda não estarmos em terra firme, se é que vocês me entendem”. Os homens na sala se entreolharam tentando descobrir quem entre eles era responsável por isso. Como ninguém se apresentou, todos, de alguma forma, acharam prudente recitar possíveis soluções para fazer o barco andar mais depressa. O capitão ficou satisfeito com essa reação. Agora, seus homens teriam olhos mais atentos e denunciariam qualquer sinal de falha, mesmo que fosse entre eles.
As lideranças, então, partiram em busca de soluções. Talvez o problema seja excesso de gente, pensou um. “Se começarmos a eliminar tripulantes, a comida será mais farta, o peso do barco será mais baixo e ainda conseguiremos enxergar todos os homens, o tempo todo. Conter e controlar. Estas são as soluções que a minha área oferece”. E assim fez. Estendeu a prancha e despachou 15 dos seus 30 homens, redistribuiu as tarefas e as frações de comida. Mas falhou. Os poucos homens que ficaram dobraram seu consumo de rum para tentar lidar com todas as novas tarefas, o medo de ser jogado ao mar e o rumor do barco afundar. A pressão e a coragem inflamadas pelo álcool fizeram um pequeno grupo roubar o primeiro bote e fugir.
O segundo homem de confiança do capitão tinha pouca experiência no mar, mas era um bom contador de causos, o que ajudou a convencer a todos sobre sua trajetória árdua nas pequenas ilhas do Pacífico. Seus comandados já tinham percebido a fraude e seu poder era constantemente questionado. Ainda assim, ele tinha algo a seu favor: a proteção do capitão, de quem uma vez salvara a vida em Tortuga, em uma briga de bar. Para proteger a reputação do capitão, essa história era um segredinho dos dois.
Como também precisava tomar uma atitude para mostrar serviço ao chefe, o segundo líder reuniu seus homens e arquitetou um novo causo. Dessa vez insinuando que, caso o barco afunde, a culpa jamais seria deles que tanto se dedicam ao seu serviços, mas sim do grupo que mais circula pelo navio, uma vez que lhes sobra menos tempo para executarem suas tarefas, que já eram em uma quantidade bem menor. Ficou satisfeito ao ver seus homens inflamados de raiva clamarem por justiça. Mas também falhou. Naquela noite, um grupo planejou uma emboscada e uma luta fez cerca de 30 vítimas fatais entre os dois lados envolvidos. Os homens feridos e a falta de mão de obra resultaram em prejuízo para todos, que tiveram que se unir para dar conta de suas entregas.
Essa emboscada desagradou o terceiro e último homem de confiança do capitão, que viu seu grupo ser reduzido sem seu consentimento.
(Continua. Em breve)
