mundança
Sabe quando você arruma suas coisas numa casa nova?
Você se muda, tá tudo sujo, empoeirado. Pra ajudar as caixas e móveis chegaram junto e você não sabem onde estão suas coisas, não dá pra tomar banho pois o banheiro está imprestável, tenta jogar uma água no rosto e o que sai da torneira tem cor de brejo; não ligaram a luz, o fogão novo não foi entregue, nem sua cama. O calor está impraticável e não dá pra romper as barreiras até a janela e abri-la. Tem a dúvida entre o que fazer primeiro: arrumar o quarto, varrer a sala, desinfetar o banheiro, comer?
Acontece que não tem espaço de manobra pra fazer tudo separado; o apartamento é pequeno e você tem que varrer-limpar-enxugar-desencaixotar-organizar ao mesmo tempo, de uma vez só.
E você está com fome.
Cansado.
Sem ter onde dormir.
Esqueceu de comprar vassoura, rodo, panos e produtos de limpeza.
O celular acabou a bateria.
E anoiteceu.
Na briga entre o cansaço e a fome, quem perde é você. É uma noite cheia de arrependimentos por não ter se programado melhor, por não ter um colchonete que seja. Está desconfortável, sujo, faminto. É tudo uma bosta e você só quer chorar. Chorar pela sua burrice, pela falta de sorte, pelos pernilongos te comendo.
Amanhece; café na padaria mais perto onde você é confundido com um indigente; mercado onde você é perseguido pelos seguranças e depois limpeza com torcicolo.
Limpa um pedaço, arrasta as coisas pra um canto, ajeita o outro, limpa de volta porque sujou tudo de novo. Após um dia inteiro de dor corporal a casa está habitável, ainda sem todos os móveis mas relativamente limpa.
Depois tem banho gelado. Mas tudo bem, estava quente e água fria põe os músculos de volta junto aos ossos.
A noite será maldormida de novo, mas desta vez em cima de um endredom, com pilhas de roupas como travesseiro.
No dia seguinte ligam a luz e você pensa que tem sorte, geralmente demoram mais. Saí pra comprar móveis usados e consegue achar uma escrivaninha da Cimo que cabe perfeitamente no seu quarto, um guarda-roupas antigo que combina com ela. Quando chega em casa tem móveis jogados na calçada que você pega uns pedaços pra fazer prateleiras.
Faz mais sujeita furando as paredes pra colocá-las. Arrumar as coisas faz sujeira.
Chega a sua cama enquanto tira os livros das caixas, arrumando-os por tamanho, você revisita trechos gostosos enquanto os coloca na parede, vai empilhando alguns que nunca leu — porque a gente compra livro que não precisa…
Termina e saí comprar lençóis novos pra primeira noite bem dormida em dias; ou semanas, meses, anos…?
O banheiro ainda está sujo e você não consegue dar jeito nas crostas entre os azulejos. Pega uma lavadora por pressão e dá um jeito. Às vezes tomamos medidas desproporcionais para resolver problemas que seriam resolvidos sozinhos, pois a imobiliária concordou em colocar um box de vidro e acabou pagando a limpeza pós-instalação…
Os dias vão passando. você ganha um quadro de um artista local que admira, improvisa um sofá de paletes, fura a parede de novo pra colocar uma rede. Organizar suja.
Chega o fogão, chega a lavadora, chegam os pratos; chegam os amigos na casa nova. E tudo vai bem. A casa funciona.
E este termo é importante: funcionar.
Tudo está no lugar, já não é difícil deixar tudo limpo. As visitas elogiam a casa: “é limpa”, “você organizou de um jeito que parece maior do que é”, “que sofá legal”, “quantos livros”.
Ainda assim ela é só isto: organizada, espaçada, limpa, funcional.
Você pode passar a vida toda ali: é prático fazer mudanças, tem espaço pra por mais coisas e nada parece ser demais.
E isto foi feito por você, sozinho, depois de tanta atribulação.
Dá um certo orgulho lembrar da zona passada e descansar olhando pro caminho que a sombra faz ao passar da tarde de sábado dentro de casa. Uma contagem de descanso.
E você acaba apagando mais cedo, se perguntando se está adormecendo de aconchego ou de cansaço acumulado da vida.
