Corações Congelados

Eu estive observando os três “heróis” nestes últimos dias, desde que entraram em meu domínio. Dois rapazes, possivelmente irmãos, e uma moça muito alta, uma pequena equipe de “heróis” que ousaram declarar guerra a mim. Triste.

Os rapazes cuidaram de meus capangas com certa facilidade, eles se livraram das ameaças com magias de gelo e fogo relativamente impressionantes, tenho que admitir. Não é nada que eu já não tenha visto, mas pela idade que acredito que tenham, é um tanto fora da curva.

A moça, por outro lado, brandindo suas espadas enormes, não transparece nenhum mísero traço de magia. Ela estraçalhou muitos dos meus homens desde que entrou aqui, e posso ver claramente que ela é a líder da equipe. Não posso ouvi-los, mas tenho quase certeza de que um dos rapazes a chamou de capitã.

Não é a primeira vez que vejo uma situação dessas. Supostos heróis, benignos e tão generosos, violando instituições, destruindo santuários e deslanchando assassinatos por onde passam, tudo em nome da paz. Poucos são os heróis genuínos, que não têm malícia ou malignidade em seus corações. Esta moça, definitivamente não é uma deles.

Eu me arrisco a pensar nos caminhos que construíram nela esse espírito inconsequente e bravio. Talvez uma tragédia sanguinária vitimou sua família quando ela era jovem? Uma traição no campo de batalha? O que alimenta todo o ódio dentro de seu coração? Mal posso esperar para descobrir.

Enfim, os “heróis” chegam ao meu castelo. Consigo ouvir suas vozes no andar principal, estão murmurando sobre o frio. Pego minha capa favorita e desço para recepcioná-los. Uma vez tive um ajudante que era viciado em frases de efeito, toda vez que eu usava esta minha capa ele mencionava ‘quanto sangue ela já deve ter visto’. Ele era divertido, pena que não sobreviveu.

Desço a escadaria e os saúdo, minha voz ecoa pelo saguão e percebo que o rapaz piromante estremece ao me ouvir. Ótimo. A capitã começa um discurso inflamado sobre justiça, que eu ignoro sem muito esforço. Ela também está sentindo os efeitos do frio deste lugar. Está quase sem voz. Vou deixá-la por último.

O outro rapaz está perplexo com a minha decoração, imagino. Estátuas humanas extremamente detalhadas, esculpidas em um belíssimo gelo que reflete os raios de luz. ‘Tão reais’ ele pensa. Ah… Se ele soubesse…

A capitã cansa de falar e parte para cima de mim. Ela é grande, mas muito veloz. Antes que eu pense em contra atacar, ela escorrega no gelo e cai no chão. O piromante corre até ela para ajudá-la, mas seu irmão continua parado, encantado com as esculturas.

Vejo um clarão se formando no centro do salão, e percebo que o mago está projetando uma bola de fogo gigantesca. Seu irmão corre até ele e o manda parar. As chamas se dissipam no ar enquanto eles discutem, eu e a capitã paramos para escutar.

“Veja toda essa arte! Estamos cometendo um erro!” ele diz. “Tem que ser tudo um mal entendido! Como pode uma pessoa com tanto talento ser maligno?”

“Você ficou louco?” o irmão responde. “Talento não é justificativa! Ele matou centenas de pessoas!” Penso em corrigi-lo. Eu matei milhares de pessoas, mas opto por não interromper enquanto eles gritam cada vez mais alto.

Eles se levantam, deixando a Capitã de lado. A discussão fica mais acalorada quando um deles menciona diversos erros do passado. Namoradas, prestígios familiares e tantos tesouros roubados um do outro. Não consigo evitar um sorriso de se formar no meu rosto ouvindo tudo isto.

Toda a raiva tomando conta. É por isso que eu vivo. Eles estão tão desconcentrados brigando entre si, que não reparam o gelo consumindo suas pernas. Embora o congelamento comece de fora para dentro, seus corações frios foram sua própria ruína.

Um deles percebe que não pode mais se mover, e começa a gritar de medo. O outro imediatamente tenta se soltar puxando a perna, o que pode resultar num destino ainda mais doloroso. “Vai cortar sua perna fora!” a capitã grita tentando avisá-los, mas é tarde demais.

Com um estalar de meus dedos, os dois são inteiramente consumidos pelo gelo, e passam a integrar minha maravilhosa galeria de estátuas. Tantos heróis cristalizados, vitimados por suas próprias emoções mesquinhas e rudes. Eu apenas agilizo o processo.

A capitã vem até mim com suas espadas em prontidão. “Todas as estátuas são pessoas que você matou?” ela pergunta, apontando uma espada para o meu pescoço. Eu respondo a ela que os próprios caídos se derrubaram. Corações congelados, incapazes de sentir amor. No máximo, tentam ferver com a força do ódio para continuarem vivos.

Ela arregala os olhos ao perceber a ponta de seus dedos congelando ao redor do cabo de sua espada. “Parece familiar?” pergunto a ela enquanto o gelo toma conta. Dessa vez, escolho não estalar os dedos. Prefiro deixá-la à mercê de seus últimos pensamentos. Uma vida entregue à raiva e ao cinismo só poderia ter colocado ela onde ela está agora.

Este será o fim de todos os de coração frio.