Matt

Lyla se jogou no sofá e ligou a TV. Sexta à noite, finalmente! Depois de uma semana louca na loja, finalmente era hora de descansar, graças a Susie, que se ofereceu para cobrir seu turno no dia seguinte.

Não era do feitio de Lyla deixar uma colega ficar em seu lugar, especialmente naqueles tempos, onde ela queria ocupar a cabeça para esquecer de toda a situação do divórcio. Apesar de toda a confusão, Lyla não conseguia parar de pensar no que Matt estaria fazendo, e com quem.

Os dois se conheceram por acidente, numa sorveteria no centro da cidade. Lyla costumava dizer que era uma cena clichê de comédia romântica, o que deixava tudo mais divertido. Lyla sempre tomava as iniciativas na relação e não se sentia incomodada por isso, ela gostava de contar as histórias e ver suas amigas chocadas pela quebra de expectativa.

Matt era mais tímido, mas sabia ser assertivo quando precisava. Era uma das coisas que Lyla achava mais interessante nele. Foi uma quebra de expectativa de maneira geral quando ele a pediu em casamento após cinco meses de namoro. Matt não estava nervoso naquele dia, ele sabia que Lyla diria sim.

Entretanto, toda essa certeza não durou muito tempo. Após um ano de casados, ambos começaram a ver as falhas mais ocultas um do outro. Os amigos insistiam que eles tinham apressado as coisas, mas no fundo Lyla e Matt ainda gostavam um do outro, embora não parecesse o bastante.

De fato, o divórcio veio com cerca de um ano e dois meses de casados. Agora, três meses depois, Lyla estava novamente sentada no seu sofá sozinha, tentando passar um tempo consigo mesma sem pensar em Matt. Porém nem isso, seu programa de culinária foi interrompido por um plantão de emergência.

Um perigoso serial killer estava foragido da polícia. Matt, o Navalha, como era conhecido, havia sido condenado pelo homicídio de quatro mulheres, mas tinha escapado da contenção e fugido para a cidade de Lyla. A primeira coisa que Lyla pensou foi ‘misericórdia’, é claro.

E logo em seguida ela pensou no nome do assassino. Matt, assim como seu ex-marido. Uma flama de dúvida acendeu dentro de seu coração, mas uma foto do assassino foi mostrado na TV, e ela se acalmou. Os dois Matts não eram nem um pouco parecidos. Ela não havia casado com um serial killer.

O âncora recomendou que ninguém saísse de casa sob hipótese alguma, até segunda ordem. Com outras medidas de segurança passadas, a programação normal voltou, mas Lyla não estava mais no clima para ver culinária.

Ela deixou a TV ligada para ter um pouco de companhia. Agora ela estava com medo. Praguejou, mas queria que Matt estivesse com ela naquele momento para se sentir mais segura. Era em momentos de solidão como este, que a faziam se perguntar se o divórcio foi mesmo a melhor ideia.

Será que não tinham dado adeus antes da despedida? Todos os casais têm problemas, será mesmo que os de Lyla e Matt eram tão tenebrosos assim que não pudessem ser contornados ou resolvidos? Por outro lado, Lyla se sentia um pouco mais leve após o divórcio, apesar da solidão. As coisas realmente não costumam ser simples.

A maré de pensamentos de Lyla foi cortada por uma batida na porta. Ela estranhou. Eram quase dez da noite, ela não estava esperando ninguém. Foi aí que ela pensou no porteiro do prédio. Ele não deixaria ninguém subir sem ligar para avisar.

A não ser que fosse alguém que Lyla já tinha dado permissão garantida, como sua mãe, que nunca apareceria sem avisar. Talvez Susie? Ou uma de suas amigas com quem ela já tinha subido várias vezes. Não. Todas avisariam antes, ou o porteiro teria avisado. A não ser que fosse Matt.

Lyla desligou a TV e esperou um pouco. Ela levantou-se e bateram na porta de novo, dessa vez mais rapidamente. Realmente podia ser Matt, mas o que ele estaria fazendo ali? Um medo subiu por sua espinha. Podia ser o outro Matt.

“Claro que não”, Lyla pensou, “Não é possível que eu tenha tanto azar assim.” Ela pensou em ligar para a portaria para conferir, mas quando ela foi até o interfone, bateram na porta ainda mais rápido. Ela respirou fundo e foi até a porta.

Lyla aguardou para ver se quem quer que fosse bateria uma quarta vez ou desistiria. Ela tinha ficado em completo silêncio, talvez o visitante achasse que a casa estava vazia. Um milhão de pensamentos invadiu sua mente. Matt ainda tinha a chave? Ela tinha quase certeza que não, mas nunca se sabe. E o outro Matt? Se a casa estivesse vazia, ele arrombaria a porta?

Desesperada pelo suspense, Lyla segurou a maçaneta. A pessoa bateu pela quarta vez. “Chega dessa loucura”, ela pensou quando abriu a porta. Levantando os olhos, Lyla viu Matt na sua frente. E chorou.