No Bar, um Livro e O Astronauta

Mae entrou direto no bar. Perturbada por seus pensamentos e pelo barulho ensurdecedor dentro do recinto. Ao sentar numa cabine mais reservada, ela pôs seu livro na mesa e pediu ao garçom somente uma porção de batatas fritas. Ela já estava sóbria há tanto tempo, que parecia a vida toda. Mas Mae bem sabia que não era.

Após passar quase quarenta anos como detetive particular, Mae largou seu conhecido trabalho da cidade grande e partiu para o interior onde vivera até os quinze anos. Os primeiros anos de trabalho eram ótimos. Maridos traidores, roubos de lojinhas de bairro, ela adorava.

Depois de um tempo, os casos começaram a ficar um pouco mais complexos e perigosos. Mae estava sendo contratada por pessoas anônimas, investigando conspirações, caçando segredos de políticos e até desvendando alguns assassinatos. Sendo paga quantias cada vez mais altas.

Com todos os segredos que ela encontrava, Mae quis desistir, mas as pessoas que pagavam por seu serviço souberam convencê-la com um toque especial de terror. Um dia, Mae chegou em casa para descobrir todos os seus pertences incendiados, com exceção de um papel laminado onde ela leu “Não pare”. Proibida de desistir, Mae continuou, segurando-se em muita bebida para evitar os fantasmas que a atormentavam. Ao menos aqueles que ela poderia evitar.

Além do álcool, seu outro companheiro era um velho livrinho de poesias. Ela havia recebido de um de seus primeiros clientes como detetive, e tinha criado um afeto especial por ele. Ela o carregava por qualquer lugar que fosse, como um tesouro inestimável.

“ Fosse-nos o mundo, o tempo, lato,
 não fora crime, amor, teu recato;
 para nos sentarmos, a supor
 planos de nossos dias de amor;
 tu, a caçar no Ganges indiano
 seus rubis, e eu, em desengano,
 a chorar no Humber. Até antes
 do Dilúvio seríamos já amantes;
 e enjeitarias convites meus
 até a conversão dos judeus;
 mais que impérios, a crescer vultoso
 o amor vegetal, e mais moroso.
 Um século para venerar
 teus olhos, e a fronte admirar;
 outros dois em cada seio arfante
 mas trinta mil anos ao restante;
 uma era em cada canto e beira,
 e teu coração na derradeira.
 Pois és digna, dona, desses bens,
 e por menos eu não te amo também.”*

Vez ou outra quando relia esse poema, Mae própria pensava o que ela faria se dela fosse o mundo e o tempo? Teria ela ido atrás do amor, prestígio ou tesouros? E se tivesse todo o mundo, qual seria sua razão pra viver? Ela não costumava admitir, mas às vezes a vida era solitária. Seus acompanhantes não poderiam ficar muito tempo. Ela era sozinha porque precisava ser sozinha.

Mas agora, aos sessenta anos, sentada na mesa daquele bar, comendo suas batatas fritas acompanhada de seu livro favorito, Mae pensava em sua solidão. Agora, livre do álcool, ela se sentia mais sozinha do que antes, embora os benefícios da saúde a deixassem satisfeita.

Isso talvez estivesse prestes a mudar. Na semana anterior, Mae havia recebido uma ligação, uma voz misteriosa pedindo para encontrar-se com ela no bar onde ela estava agora. Ela estava acostumada com vozes moduladas requisitando seus serviços, o estranho foi terem ligado para sua casinha no interior.

Ela não tinha desligado a linha de seu antigo escritório, mas não imaginou que fossem procurá-la diretamente. Um homem apareceu, pediu uma bebida e sentou-se no banco em frente a ela na cabine reservada. Ele tinha roupas num único tom preto, quase não dava para diferenciar onde começava o paletó e começava a camisa.

Com exceção de um detalhe prateado no bolso do paletó. Um pequeno astronauta segurando um círculo espelhado acima da cabeça. O homem tirou o pingente e colocou em cima da mesa. Mae o examinou e viu seu reflexo no círculo acima do astronauta. Rugas, cabelo acinzentado, nada de novo.

O garçom trouxe a bebida do homem e colocou ao lado das fritas de Mae. Os dois se olharam por um tempo até ela começar a interrogá-lo. Ele dava respostas curtas e vagas. Quando ela se irritou e ameaçou ir embora, ele começou a falar de verdade.

O homem contou a Mae que a maioria das pessoas com quem ela estaria conversando nos próximos dias agiria de maneira semelhante a ele. -Um caso? — ela perguntou, e o homem acenou com a cabeça. Ele deu um sorriso, levantou-se e foi embora.

Ela encarou novamente o astronauta, e decidiu virá-lo. Atrás do círculo espelhado ela reconheceu um endereço. Seu corpo relaxou em alívio, ela sorriu, pagou a conta e levantou-se. Colocou o pingente do astronauta em sua roupa, recolheu seu livro fiel e saiu do bar. Direto para as costas do astronauta.

Direto para um último caso.

*To His Coy Mistress — Andrew Marvell, tradução de Adriano Scandolara