espiral de ódio, capítulo 1

é sempre bom lembrar a história de joe camembert, hacker e mente proeminente de new york city, an all-around entrepreneur, que em certas madrugadas sobe embriagado no elevador até o seu loft suuuper central, desabotoando seu terno sem fiapos e botões pretos firmes para chafurdar-se na pizza fria do almoço

camembert com os olhos erodidos fuma um cigarro contemplando the city that never sleeps, digere o momento catártico ainda com nacos de pepperoni entre os dentes. saca do bolso do terno firme um aparelho celular, que para sua surpresa não é o seu: em vez do seu samsung galaxy de última geração olhava para um faceiro oi mtv laranjinha

a cidade de horizonte igualmente alaranjado oferece um raro momento de silêncio. camembert nos lembraria uma gárgula, se poetas fôssemos. suas garras apertam o pobre oi mtv sem compaixão, paquerando o parapeito. está prestes a zunir aquela coisa horrorosa das alturas do décimo andar daquele loft super central

mas eis que não há tempo para tal, pois soa uma canhestra versão monofônica de pour elise, e vem do aparelho sustentado no ar afetadamente por camembert, braço forte e mão de zeus à beira de um raio de misericórdia. e bem provável que o semblante do businessman, em termos de expressividade, era mais rico que o do barbão, pois zeus devia jogar um número tão considerável de raios que se faz plausível sua imagem de, pobre porquinha na grande engrenagem cosmogônica, um eterno entediado com seu destino em loop, cabendo inclusive debate sobre uma divina tendinite ou lesão por esforço repetitivo. deuses e santos são, guardadas as devidas proporções celestiais, funcionários públicos como tantos por aí, burocraticamente fazendo mover a máquina do mundo, mas sem décimo-terceiro ou FGTS, porque não haja quem lhes assine as carteiras

camembert, pois, esquadrinhava com o braço um ângulo reto agradável. a música ainda toca mais alguns momentos, mais alta agora, até joe c., não se sabe se por curiosidade ou se para acabar com o martírio que é ouvir a versão monofônica de uma peça clássica querida, decidir atender a chamada

mas um choque traz seu olhar de volta à esquina onde chocam-se os carros. e a barriga vazia da noite novaiorquina é preenchida pelo ruído de um jovem porco desesperado entre ferro que se retorce. duas máquinas, acostumadas a deslizarem ardente e imponentemente pela cidade, agora murchas, duas ameixas velhas de vidro fumê. o oi mtv já não soa mais, e joe c. percebe como é interessante que, via de regra, há um luto compartilhado entre os motoristas, uns poucos segundos onde nenhum se atreve a sair. ninguém nunca sai de cara. há um respiro, como atores de teatro se despedindo das coxias, antes de entrar em cena. os motoristas desnudam-se dos seus microcosmos antes de — cada qual ao seu modo, uns mais indignados, outros conciliadores e objetivos — chocarem-se, agora, entre si. pessoas frágeis, confusas, pequenas se comparadas ao corpo mecânico e volante que vestem. olhando confusamente, balbuciando civilização, tentando estabelecer a responsabilidade, quem veio pra dentro de quem, quem vai pagar o quê

joe viu a batida, sabe que o que vinha da esquerda teve mais culpa do que tava parado depoi rodopiô e tebeif. a esquina onde chocam-se os carros é o seu passatempo favorito, é pra onde olha quando toma várias drogas e é onde quer se quasar. quer fechar ela, quer chamar os entes queridos, fazer que nem vanillescai, fechar nova iorque pra filmar a si próprio quasando. ele vai quasar com o próprio dente-sisa, que é uma mulher-coluna no canto da sua boca feminina. sisa irrompe por trás, de dentro, rasgando pele fina, criando riachinho de sangue. joe ama seu sisa. ele quer sexa, uga-uga style, na boca. escrevia poemas para sisa, com metáforas de espécie, evolução: onde tá o pepperoni da pizza fria agora, já foi carne tenra de hienas bebês! hissin, sibilante joe camê

mas isso são pirações de dentes cintilantes e estrelas nas esquinas escuras, J sabe que é dente, só, que não fala quasar, nem que existe uga-uga style mais. esse style morreu com o advento das palavras, uga-uga is no more. esses lapsos mais livres sempre o acometiam à ocasião do choque de carras. ele sentia-se meio bêbado e sujo quando ouvia a desgraça no asfalto, sentia uma coisa voluptuosa de ir trocando letras e esquecendo palavras até não saber mai a língua e entrar no uga-uga flow. mas o flow passou, joe

.

e os ois mtvs, persistindo admiravelmente num mundo de galaxies, dragões de komodo com carapaças de plástico, não desistem tão cedo. e não é que, enquanto o homem do carro da esquerda vociferava com o homem do carro parado que rodopiou, pour elise voltou esbravejar? despertando do breve e profundo passeio pela verdade das coisas, joe atendeu sem titubear

— alôôô

— bora

— quem é?

— é uílson

— uílson, deve ter havido algum engano. você deve estar procurando o dono deste aparelho, que não…

— jou?

— é… nos conhecemos? de quem é esste telefone?

— rapaz, é meu. a gente trocou ontem. lembra não? tu disse que era mais fácil assim do que anotar.

— hein?

— lembra não… olha, tu arrumou uma confusão horrível ontem, em charles. tem gente atrás de tu, gente ruim. te cuida, jou.

clic

por isso que é sempre bom lembrar da história desse reizinho delirante, joão the jou, que morava nesse apartamento e vestia ternos afiapados, e tinha fetiche dentário e gostava de tratar a porcelana de suas pupilas com longas observações sobre uma esquina onde chocam-se carros. porque parte de seu delírio eram essas outras vidas, já que johnny joe camelinho também trabalhava de único funcionário do ferro-velho de assis, que fica na estrada estadual PE-051, depois do posto pichilau. e jou gostava de conversar com anjos, enquanto os pêlos dos seus braços arrepiavam todos com o calor abrasivo das duas da tarde. e das conversas dele com os anjos registrou-se muito pouco, quase nada. mas, do que ficou, coisas lindas brotaram e outras coisas nem linda nem feias, mas estranhas feito mapas de regiões improváveis, das quais falaremos todas aqui