Ideias verdes sem cor dormem furiosamente

Levi S Porto
Jul 25, 2017 · 2 min read

Numa bela manhã de outono percebi que minhas ideias sem cor dormiam furiosamente, apesar de verdes que são. E era assim, na cara dura, que me faziam de gato e sapato. Gato eu já era — isso foi antes da pancinha — mas sapato era a primeira vez.

E lá fui eu pro trabalho sendo um sapato. Por um momento pensei que a galera ia pisar em mim, mas que nada. Não é por você ser um sapato que as pessoas vão querer pisar em você. Na real, é necessário no mínimo uma olhadinha, uma testadinha, põe no pé, tira, põe no outro porque era o lado errado. Se fechar, talvez nem feche por muito tempo porque o modelo as vezes nem é do nosso gosto.

Achei péssimo. Ruim ser sapato, sapato não quero ser, eu pensei, mas antes sapato que ideias verdes. Sapatos tem descanso tranquilo após o dia de trabalho.

Mal podia eu esperar para voltar em casa após um dia de trabalho, mas me veio à sola que minhas ideias dormiriam furiosamente novamente. Isso me desfez o nó. Quem elas pensam que são? Que tipo de ideias dormem furiosamente? Ainda mais em sapatos. Sapatos não são pra pensar. Senão, o que vão pensar da caixa de sapatos? Suas ideias iriam dormir tristemente. Grande absurdo.

Para a minha surpresa, eis que me vi testando a ideia assim que cheguei em casa. Um pouco descalçado do dia, é claro; se não fui calçado é bem verdade que não fui pisoteado. Mas enfim — no momento em que cheguei me meti numa caixa de sapatos.

Sim, uma verdadeira caixa de sapatos; inébril (calma, inébril não, acabo de ser informado pelas minhas ideias de que a palavra inébril não existe. Será que deixou de existir, será que foi levada pelo tempo, ou pela crueldade humana, como o pássaro dodó? De qualquer maneira, a caixa de sapatos não era inébril). Me veio às ideias de a caixa de sapatos era pouca coisa, e triste dela ainda ter perdido a inebricidade.

Enquanto eu me recostava ao confortável papelão, me veio às ideias que eu podia muito bem chamar a caixa de sapatos de tudo que eu quisesse. Agora ela seria inébril! Que a sociedade não me impeça de dormir em caixa de sapatos e achar isso bastante inébril.

Nesse dia de outono minhas ideias não dormiram furiosamente. Dormiram com outro sentimento que não o som e a fúria. E eu nem fui trabalhar, tamanho o conforto com a minha existência e a convivência pacífica com tão verde ideias.

Que vida, meus amigos, que vida!

Levi S Porto

Written by

Autor do “Chinchila”, ed. IPDH, 2019

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade