Longas cartas para ninguém

saiba que pra mim escrever por si só não é lá grande desafio, muito pelo contrário — escrever me é atividade prazerosa e que recompensa; escrever me põe os pensamentos no lugar e me transporta pro meu próprio universo; escrever é arrumar o quarto da alma. mas saiba que pra mim, grande desafio reside não tanto escrever, mas em adereçar o que é escrito: aquele gosto ácido na boca de quem escreve pro mundo e acaba que ninguém lê. é uma dor que não é nas juntas do mal-sentado nem nos dedos de quem passou horas no teclado — é uma dor que não sei onde está caso o médico perguntasse mas que dói no fundo do corpo, seu doutor, o problema é mais à dentro.

queria eu ser como vocês artistas que fazem ficar bonito para si mesmo, quando eu faço bonito para os outros, e por isso sempre sofro: duplo desafio o de fazer o outro feliz e o de si mesmo feliz. mas nada se compara a quando nem tem o outro pra entregar a arte. quando o outro não está interessado ele amassa o papel e joga no lixo mais próximo.

ninguém lê o que eu escrevo, ninguém lê o que eu escrevo, ninguém lê o que eu escrevo.

acredito que a missão resida em tornar a tarefa de escrever um amor-próprio, um si-amar; retirar com um puxão o texto escrito e gritar “não está em você a responsabilidade de me reconhecer”. mas o que é da árvore que desaba no meio da floresta, sem que ninguém fique sabendo? talvez ela nem exista. ninguém soube que ela nasceu, nem que ela persistiu à vida, nem que ela sucumbiu à morte.

a segunda vez que você morre é quando pronunciam seu nome pela última vez. o que dizer da árvore cujo nome nem foi pronunciado pela primeira vez?

me apercebi criança, aquela que está sempre anotando seu nome na areia, apenas para que este desapareça sob a primeira onda que a levar embora. porque a criança persiste? não faço ideia. mais fácil seria desistir e jogar-se ao mar; aproveitar a praia enquanto não é hora de voltar para casa. mas que chato é mar, que chato é a praia. bom é escrever na areia, mas ruim são as ondas que levam as palavras embora.

as ondas levam as palavras embora.

saiba que pra mim amar por si só não é lá grande desafio, muito pelo contrário —amar me é atividade prazerosa e que recompensa. mas quanto ao me cabe o amor tenho tentado escrever não em areia mas no fundo do mar. nem eu vejo meu nome, nem muito menos a areia.

o mar fica com as palavras e é como se elas nunca existissem. como a árvore que cai no meio da floresta.

ninguém lê o que eu escrevo, ninguém lê o que eu escrevo, ninguém lê o que eu escrevo.

porque a criança persiste? não faço ideia. talvez resida um pouco da simples diversão e prazer próprios da atividade; da escrita e do amor, mas nunca deixou de ser duro quando as ondas vem e levam as palavras embora. nunca deixou e eu acredito que nunca deixará.

a humanidade persegue moinhos de vento. e eu escrevo pra ninguém em particular. sei que não é para mim porque assim que paro, já não me lembro mais do que estava dizendo.

o texto está no leitor, eu li uma vez, e que pena do texto que não está em ninguém. esconde-se a difícil verdade de que talvez ele não exista mesmo. o que pensar do escritor cujos textos não existem?

são 9 horas da sexta e eu preferiria não estar escrevendo esse texto. esse texto não vai chegar nas mãos de ninguém. esse texto, bem como muitos outros, bem como muito do que construí nessa vida, vai chegar nas mãos de ninguém e isso pouca diferença fará. eu preferiria estar com os meus amigos em algum canto dessa pequena cidade, vivendo a ilusão de que para eles eu sou duradouro; ou no mínimo mais duradouro que palavras na areia.

mas são 9 horas e minha companhia é esse texto que eu cederei a decência de ler. sim; ao menos eu lerei e absorverei esse texto, e em mim ele residirá. esse texto vai existir. são 9 horas, e é difícil manter a ilusão de que para eles eu sou duradouro se no fim das contas estamos aqui só eu e esse texto.

esse texto tem problemas demais, é conturbado demais. eu me pergunto se a solução para as pessoas lerem meus textos são torná-los mais limpos. mais acessíveis. me tornar uma pessoa mais fácil.

quem sabe isso me dê diferentes nove horas.

um dom que no fim das contas não me recompensa muito, esse de escrever. esse de fazer arte, de fazer amigos; esse de estar vivo. no fim das contas, eu escrevo textos para serem lidos. não sei se é assim que as outras pessoas escrevem; tudo me leva à crer que não. na verdade, não sei. não quero pensar nisso agora.

eu quero parar de escrever e ir fazer algo melhor da minha sexta a noite.

que esse texto encontre corações melhores do que o meu.

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