Porque você deveria fazer um Zine

Olar. Eu sou Levi S Porto e nesse artigo eu vou tentar convencer você artista à produzir um zine (aquele livrinho em formato de cordel que era sucesso na imprensa alternativa no Brasil anos 80). Talvez esse seja uma mídia que dê ao seu trabalho a exposição que você precisa pra mostrar para um público maior do que os seus amigos mais próximos de que você é um mestre das artes da escrita/ilustração/pintura/HQs/tudo junto mesmo.

Vou contar também o meu percurso publicando meu primeiro zine, o Playlist da Bad, da ideia até a distribuição. Então se você não for artista lê meu texto só porque mostra meu percurso? ❤ Obrigado.

PORQUE VOCÊ DEVERIA FAZER UM ZINE

Eu escrevia poemas. Como eles não são de uma qualidade notável, eu nunca fui de postá-los ou de criar uma página pessoal no Facebook/Instagram como meus amigos artistas chiques para me promover. Criei um tumblr só para ter algum lugar para disponibilizá-los na web. Mesmo que eu deixasse o link na minha descrição do Facebook ou do Instagram, meus poemas só recebiam 8 visitas por mês, em média.

A questão é que a internet talvez seja o pior meio para você divulgar o seu trabalho escrito — ainda mais se forem poemas ou crônicas. Nessa era da atenção dividida, as chances são que se cansem do seu texto se ele tiver mais do que 3 linhas. Se estiver no facebook é chamado “textão” ou “wall of text”. Se não estiver, são poucas as pessoas que terão disponibilidade de deixar o app do Facebook em stand-by enquanto visitam o seu site ou blog.

Ainda tenho sua atenção? Ótimo.

Se você trabalhar com imagens o Facebook é seu paraíso. Tenha certeza que são facilmente identificáveis e a mensagem que queiram passar seja clara, direta e compartilhável. Quer publicar algo que demande um pouco mais de atenção, como uma HQ mais longa? Começam aí os seus problemas.

Publicar na internet é certeza de que a atenção não está 100% em você. O publíco vai te alternar entre mensagens e outras abas, e você deve ter um holofote de cerca de 6 segundos por postagem.

Você ainda está aí? Obrigado.

Você com certeza terá muito mais exposição na internet e sua audiência poderá ser internacional. Eu não vou tentar convencer você a lançar um vinil ou uma fita VHS se você prefere usar o YouTube. Mas se você quer um pouco mais de atenção do seu público, talvez você possa considerar publicar na milagrosamente-ainda-não-extinta mídia física.

O zine é uma plataforma muito fácil e barata de se publicar e se lançar. Você entrega na mão do seu público e tem certeza da atenção deles. É um baita presente e é mais fácil de cobrar por ele do que por um e-book. Você pode levá-lo para eventos como a Geekexpo e o Mercado de Quadrinhos. Eu garanto que a experiência é mais emocionante, e se tudo falhar, você ainda pode pagar de hipster “eu publiquei um zine independente!!!”.

>>MINHA EXPERIÊNCIA<<

Na segunda semana de Janeiro, eu produzi um Zine.

Decidi que esse ano seria um ano para (finalmente) pôr meus projetos para frente. O simples problema era que eu tinha tantas opções que não sabia pelo que começar.

Eu estava bastante animado porque uma semana antes eu tinha finalmente conquistado minha carteira de motorista, uma batalha pessoal minha que mesmo após meses de procrastinação da minha parte me recompensou, principalmente, com a valiosa mensagem de que “ainda não é tarde demais para fazer nada”. Assim sendo, corri para a mesa de experiências. “O que eu quero fazer agora?” Esse questionamento é um problema para mentes vazias e de muito tempo disponível como a minha. Mas você sabe o que dizem sobre mentes vazias. Desisti e fui ler um livro.

Eis que me deparo com a minha miníscula coleção de zines — um pouco de escritores locais como Márcio Moreira (da maravilhosa Netuno Press), Emerson Bastos e Van Hallen Sampanelli (local-famous). Esses dois últimos me venderam seus fanzines no boca-a-boca, me abordando no Dragão e na UFC, respectivamente, e o Márcio me convenceu na GeekExpo já que eu estava levando uma HQ do estande dele mesmo.

O que já diz muita coisa: tais são os métodos de distribuição do Zine enquanto mídia: mão a mão, boca a boca e em festivais e eventos. Diante de tão fácil produção e distribuição, e já tendo os materiais prontos (minha poesias de anos atras), resolvi criar um zine. Assim, eu saberia em primeira mão como é a distribuição independente e ainda o que as pessoas pensam dos meus poemas.

Levou uma semana. Nos primeiros dias li sobre o Zine, sua história e produção no Brasil. Eu vi um ótimo documentário e li um livro chamado O Que É Fanzine de uma ótima coleção. Eu vi muito material desse site maravilhoso, e me emocionei bastante.

>>PRODUZINDO UM ZINE<<

Quanto a produção, empaquei nos primeiros dias. Como o principal objetivo do meu Zine era de vincular meus textos, eu achei que o Word faria tudo por mim. Na realidade, formatar no Word era um pesadelo. Ele arrancava borda, imprimia errado (eu nunca abusei tanto da minha impressora) e ainda tive de descobrir quando imprimir frente e o verso e pra cima ou pra baixo. Foi horrível. Sacrifiquei muitas folhas e meio cartucho no processo.

Chamei duas amigas, a Larisse e a Bárbara, pra me ajudarem. A Luahra se juntou logo depois e juntos nós estudamos como montar o zine (recortantemente falando) e procuramos por templates já prontos de zines. Já que nem esses ajudavam, abandonamos o Word por completo e fomos atrás de alternativas.

A segunda e decisiva ferramenta foi o Adobe Illustrator, que me familiarizei no Sistemas e Mídias da UFC. Usar o Illustrator pra uma tarefa básica dessa é muito tranquilo e consiste apenas em mudar o documento que se trabalha para o formato A4 e inserir e editar blocos de textos. Construi um molde eu mesmo, já sabendo qual lado era qual. Você pode baixá-lo aqui.

Se você quiser saber, a diagramação para um zine como o meu, pequeninho de 12 páginas, ou 2 folhas A4, é a seguinte:
Primeira folha A4
Contra Capa|Capa
Pag 12 |Pag 1
 — — — — — — — -
Verso Capa|Verso Contra Capa
Pag 2|Pag 11
Segunda folha A4
Pag 10|Pag 3
Pag 8|Pag 5
— — — — — — — 
Pag 4|Pag 9
Pag 6|Pag 7

Acima um tutorial de como fazer um zine simples como o meu com o Adobe Illustrator. Eu que fiz! :D

Uma vez o zine em processo de edição, resolvi iniciar sua divulgação. Eu fiz uns 3 InstaSnaps básicos, sem revelar muito, para criar interesse e curiosidade nos meus seguidores sobre o que eu estava fazendo. Esses InstaSnaps recebiam cerca de 45 visualizações cada, e amigos perguntavam o que eu estava aprontando.

Concluído o zine, faltava apenas imprimí-lo e distribuí-lo. As folhas eu consegui na papelaria mais próxima (6 RS um bloco de 40 folhas A4 azuis 50kg, mais grossas que aquela típica A4), e restava a impressão. Fazer isso em casa não era opção já que eu descobri que a minha impressora não tinha modo Borderless (a sua impressora provavelmente também não tem. isso causa a sua impressão sair com uma borda pequena, mas notável embaixo e em cima). Sendo assim, fui na gráfica mais próxima. Eles fizeram uma prova pra mim e eu até gostei do trabalho final. Isso foi na sexta. Prometi que ia voltar pra fazer mais vinte. Quando voltei no sábado, eles estavam fechados.

E eu queria meu zine pronto no sábado. Peguei o ônibus com a Luahra e o meu primo pro Benfica, e lá procuramos pelas famosas gráficas do lado do CH2. Não só estávamos atrás da impressão mais econômica — estávamos em busca do lendário grampeador que ia até metade da folha para grampear. É difícil de explicar, mas tente imaginar como se grampeia um zine ou um livreto qualquer. É trabalho feio. O seu grampeador não vai até o meio da folha, e mesmo que você o abra ele não grampeia aberto independente da força que você aplique ou da sua motivação para fazê-lo.

1. cortar a A4 ao meio; 2. fazer um livrinho; 3. colocar a borracha debaixo de onde você vai grampear; 4. ajeitar o grampo com a unha. Image Pattern Designed by Freepik

A terceira gráfica, Unicópias, ofereceu a solução. Eles nos ensinaram uma técnica totalmente D.I.Y que consistia em colocar uma borracha embaixo do local onde você grampeia — assim o grampo fica preso entre a folha e grudado na borracha. Você o arranca da borracha e ele estará pontudo, lock and loaded para assassinar seu dedo. O que você faz é empurrá-lo para que fique no formato de um grampo decente.

Pela valiosa dica, decidimos imprimir naquela gráfica. Decisão acertada, porque o moço que nos atendeu fez várias tentativas sem cobrar por elas. Um último empecílio: a bordas que eu havia desenhado para saber onde deveria cortar estavam dando erradíssimo no produto final. Elas ficavam mais em cima ou mais embaixo, mas nunca onde eu deveria cortar. Minha salvação foi que eu tinha salvo os arquivos em PNG, formato de imagem, e essas linhas foram facilmente apagadas no Microsoft Paint. O moço da gráfica cortou todas as folhas A4 ao meio com uma maquinazona, o que me poupou de um trabalho desgraçado com o estilete. A impressão toda me custou 20 reais e rendeu 20 zines.

Feliz da vida e com a impressão em mãos, grampeei manualmente todos os zines numa linha de montagem com a Luahra e o meu primo. Ficaram lindos, meus bebês.

Hora de distribuí-los. Criei uma publicação no meu Facebook divulgando os meus zines, e prometi que entregaria a qualquer um que pedisse na postagem. A resposta foi imensa e muito rápida, o que me deixou bem feliz.

43 pedidos. 43.

>>DISTRIBUIÇÃO<<

Mas longe daquela sensação boa de trabalho concluído — a distribuição foi a parte mais difícil. Como todos os pedidos eram de amigos ou conhecidos pessoais, eu poderia pedir o CEP de todo mundo e mandar por correio. Mas seguindo a simulação do site dos Correios, enviar um só zine não saria por menos de 1,70 cada. Cada. Só enviar me custaria 73,10 RS. Decidi que entregaria em mãos, já que eram conhecidos e eu estava de férias mesmo.

Foi fácil entregar o zine para amigos mais próximos em saídas rotineiras. Fiz uma pequena lista de entrega com o bloco de notas mesmo. O problema estava em quem eu não costumava ver com frequência: aqueles amigos do “vamo marcar”. Você que transita entre a adolescência e a idade adulta deve ter vários desses. Você que já é adulto provavelmente desistiu de tentar. Dividi esses amigos em núcleos e combinei com alguns para entregar pro grupo inteiro (ex: muita gente que me pediu um zine estuda psicologia na UFC. eu entregaria todos os zines da psicologia para uma só amiga, que distribuiria por lá). O erro nesse approach? Todo mundo nesses núcleos é “vamo marcar”. Até hoje não consegui entregar esses zines.

Além disso, mais da metade dos pedidos eram de amigos sem núcleo. Amigos da vida, cada qual no seu lado, sem muito contato uns com os outros. Eu teria de combinar de entregar o zine com cada um.

Após entregar a minha remessa inicial (a dos amigos mais próximos) eu me senti desestimulado a entregar a próxima remessa. Tanto por essas dificuldades na distribuição quanto pela falta de feedback que eu recebi pelos 20 primeiros zines entregues. Além de elogios pela capa e pelo título, não escutei muito. Eu não fui atrás de saber o que as pessoas tinham achado do zine — eu planejava fazer uma sondagem após entregar todos, mas faz um mês que eu entreguei a primeira remessa e o momentum já foi perdido. Ainda farei a postagem no futuro, tho.

A primeira remessa acabou muito rapidamente porque dos 20 zines dos pedidos iniciais, outros 6 foram entregues sem que eu os contabilizasse, de gente que se interessou mas não registrou esse interesse no post do facebook. Geralmente eram amigos que estavam por perto quando eu entregava o zine para quem tinha feito o pedido. Faça zines extras para esses.

Como não recebi puxões de orelha para entregar os zines até hoje, fui procrastinando mesmo. Mas fiz uma segunda edição caprichadíssima, com fontes, arte e tabela de créditos novos. Vou entregá-la em breve. Sério.

>>Conclusão<<

Espero que eu possa ter feito você considerar novas mídias (além da internet) para divulgar o seu trabalho artístico, seja ele qual for. Publicar em mídia física é também pôr a cara no mundo (e à tapa), encontrar seu público cara a cara e não é tarefa cara (há!). Talvez seja desse empurrãozinho que sua carreira precise.

Por mais artistas e trabalhos publicados nesse Brasil e mundo.

>>Keeping Up With LeviS<<

Reimprimi a segunda edição, que dessa vez por conta do início das aulas saiu um pouco menos em conta (1,20 por zine e 7,50 as folhas azuis) e já estou entregando novamente. Incluí fotos de como grampear com a borracha. Fiz um vídeo tutorial.

— — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — —

PS: Shoutout para a bailarina Renata que insistiu para pagar pelo zine dela! Minha primeira arte remunerada. Thanks Renatinha ( •̀ω•́ )

Edit: O vídeo tutorial está pronto! Oba!